ATITUDE CRUEL – Familiares do idoso que morreu por coronavírus em AL recriminam conduta do governador

Filho e nora da vítima denunciaram negligência médica no atendimento e alegaram não terem recebido o resultado do exame de Covid-19

Após o governador Renan Filho anunciar em suas redes sociais, nesta terça-feira (31), sobre  a primeira morte por Covid-19 em Alagoas, familiares da vítima divulgaram informações que puseram em xeque a veracidade da publicação. Segundo o gestor alagoano, o óbito ocorreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Trapiche, em Maceió, e se trata de um acreano de 63 anos, que não tinha histórico de viagem recente e havia se mudado para o estado há apenas seis meses.

Nos comentários da postagem do governador, Mikayla Souza, que se identificou como nora do idoso, afirmou que o teste para coronavírus não tinha sido concluído e que o sogro morava em Maceió há cinco anos – desmentindo a informação publicada. Mencionou ainda que ele era diabético e esteve várias vezes na UPA do Jacintinho, onde recebeu o diagnóstico de pneumonia e foi medicado, mas, cinco dias depois, houve uma piora e ele morreu.

Pouco tempo depois, Antônio Guedes da Rocha Neto, filho do acreano José Dagmar Xavier da Rocha, declarou que o pai foi vítima de negligência médica e só soube da causa da morte por meio da notícia divulgada pelo governador nas redes sociais. Segundo ele, o paciente fez uma peregrinação durante 17 dias pelas unidades de saúde em busca de atendimento apropriado, mas só recebeu descaso e demora na assistência ao senhor.

Antônio confirma a informação dada por Mikayla de que teriam ido mais de uma vez à unidade de saúde do Jacintinho, onde a médica receitou antibiótico e o liberou. Como o paciente apresentou falta de ar, a família implorou que fosse realizado o exame do coronavírus, mas, segundo o filho, foi negado por causa do histórico de fumante do idoso.

Ele explica ainda que, com o agravamento da situação, José Dagmar foi levado ao Hospital Geral do Estado (HGE), onde ficou internado e só então veio a fazer o teste para Covid-19. Depois de dois dias, foi transferido para a Unidade do Trapiche e ficou em isolamento, mas veio a falecer.

Na postagem de Renan Filho, Mikayla comentou sobre a tentativa de transferência do idoso, da UPA para um hospital, o que não ocorreu, e disse que havia ligado para a unidade de saúde em busca do resultado do exame, mas negaram que o mesmo estivesse pronto. “Lutamos por uma vaga na UTI sem sucesso. Quero dizer que o senhor governador está em busca de mídia […] sua equipe anda mal informada. Acabamos de ir na UPA novamente e ele alegou que não chegou o resultado”, diz a nora em um trecho da mensagem, que foi apagada pelo administrador da página.

Em entrevista à TV Ponta Verde, o secretário de Estado da Saúde, Alexandre Ayres, reiterou que o resultado do exame do acreano deu positivo para o coronavírus, mas os familiares acusaram o governo de divulgar dados da vítima sem autorização e sem o prévio conhecimento da família, causando constrangimento entre os parentes próximos e vizinhos.

“O senhor governador, sem nenhum pingo de piedade, junto com sua equipe, foi na mídia e só faltou falar o nome do meu sogro. Todo mundo sabe onde a gente mora, e quem é ele. A gente está passando por um constrangimento muito grande, porque nem todos entendem”, disse Mikayla em um vídeo postado em seu Instagram.

Precisa melhorar

Em diversos comentários feitos na publicação de Renan, surgiram questionamentos sobre o motivo da internação de um paciente com coronavírus em uma Unidade de Pronto Atendimento, e não em um hospital de referência. Alguns usuários opinaram que o chefe do Executivo está querendo causar pânico nas pessoas e cobraram transparência da gestão, bem como melhorias nos atendimentos públicos.

Na live transmitida na noite desta terça-feira (31), o governador e o secretário da Saúde esclareceram alguns fatos. Segundo eles, o idoso faleceu no domingo (29), mas o resultado do exame saiu apenas na terça, e confirmou a causa da morte por coronavírus. Foi explicado também que o atendimento feito na UPA era adequado à situação e que só seria possível a transferência do paciente para uma UTI após a comprovação de ser um caso de Covid-19. No entanto, o idoso faleceu antes da conclusão do teste.

O deputado estadual Davi Maia usou sua rede social para recriminar a forma como foi feita a divulgação da primeira morte por Covid-19 em Alagoas. O parlamentar classificou a atitude do governador como insensível e desumana em relação à família do paciente.

“Por que este tratamento insensível e desumano com a família? Postar em Instagram pessoal do governador não é oficial. Faltou respeito e humanidade com os parentes, que só descobriram a causa da morte pelas redes sociais. Em época de pandemia, precisamos de notícias oficiais e organizadas para evitar pânico e ainda mais medo”, disse Maia em publicação no Instagram.

CRM vai investigar

O Conselho Regional de Medicina (CRM) classificou a morte do idoso por coronavírus e o anúncio da fatalidade como “grave episódio”. O órgão prometeu apurar o fato de o paciente ter permanecido na UPA, em estado grave, e o motivo de terem divulgado o resultado do exame nas redes sociais antes de ser notificado à família.

Também foi feita uma denúncia, por parte de profissionais da saúde de Maceió, de que o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) estaria negando a realização de testes para coronavírus. Uma médica, que não quis se identificar, declarou que chegou a discutir com uma funcionária do Cievs diante da negativa do exame e da orientação de subnotificação de alguns casos. A médica deixou claro que não sabia se tratava-se de uma orientação do órgão ou do despreparo da servidora.

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