A ofensiva da Polícia Federal contra suspeitas de corrupção na saúde pública de Alagoas ganhou novos contornos nesta terça-feira (16) com a divulgação do balanço oficial das apreensões realizadas no âmbito da Operação Estágio IV. Os números expostos pela PF ajudam a dimensionar a gravidade das suspeitas que recaem sobre a cúpula da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e aprofundam uma crise que já vinha sendo sentida por usuários do SUS, profissionais da área e fornecedores do sistema.
De acordo com a Polícia Federal, foram apreendidos aproximadamente R$ 1,1 milhão em dinheiro vivo, moedas estrangeiras, joias e outros bens de alto valor. Somente em espécie, os agentes recolheram R$ 775.420. Também foram encontrados US$ 24 mil, o equivalente a cerca de R$ 120 mil, e € 10.625, estimados em aproximadamente R$ 58 mil. Além disso, joias avaliadas preliminarmente em R$ 300 mil e duas armas de fogo — cujo valor não foi divulgado — integraram o conjunto de apreensões realizadas durante o cumprimento dos mandados.
A investigação revelou ainda um elemento considerado sensível pelos investigadores: uma pousada de luxo avaliada em R$ 5,7 milhões, localizada no município turístico de Porto de Pedras, no litoral norte de Alagoas. O imóvel está registrado em nome de Gustavo Pontes de Miranda Oliveira Filho, filho do então secretário de Saúde, Gustavo Pontes. Segundo a PF, a pousada operava normalmente em uma plataforma internacional de reservas, cobrando diárias de até R$ 650. O empreendimento foi sequestrado por decisão judicial e é apontado como possível peça-chave em um esquema de lavagem de dinheiro.
A Operação Estágio IV resultou no afastamento de Gustavo Pontes do cargo por 180 dias, não por decisão administrativa do governo estadual, mas por ordem do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5). A mesma decisão autorizou o sequestro de bens dos investigados, reforçando o entendimento de que havia risco de ocultação de patrimônio.
Em nota pública, o secretário afastado negou qualquer irregularidade e classificou a ação da Polícia Federal como “abuso”. Apesar disso, a investigação segue avançando. Ao todo, a operação cumpriu 38 mandados em três estados, mobilizando cerca de 170 policiais federais e 26 auditores. O foco da apuração é um suposto desvio de aproximadamente R$ 100 milhões da Sesau, envolvendo contratos superfaturados e repasses suspeitos a empresas e clínicas privadas, entre elas a Clínica NOT, especializada em ortopedia, da qual Gustavo Pontes teria sido sócio no passado.
Para investigadores, o volume de dinheiro em espécie, a presença de bens de luxo e a ligação patrimonial com familiares diretos do gestor são indícios clássicos de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro. Em meio a denúncias de atrasos de pagamentos, falta de insumos e paralisações na rede pública, o caso amplia o desgaste político do governo e lança novas sombras sobre a gestão da saúde em Alagoas, um setor já marcado por fragilidades estruturais e recorrentes escândalos.




