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A arquitetura invisível do poder

Há políticos que se medem pelo que deixam escrito nas leis. E há os que se medem pelo que escrevem, invisíveis, no avesso do tecido. Renan Calheiros, trinta e um anos ininterruptos no Senado, pertence inteiro à segunda espécie. Três leis em três décadas. O número, friamente alinhado ao lado da longevidade, parece um equívoco aritmético. Não é. É uma confissão de método.

Ora, pois. Quem espera encontrar no currículo do senador alagoano uma cordilheira de projetos transformados em norma sai de mãos abanando. Mais de oitocentas matérias apresentadas, e apenas três sobreviventes de alcance nacional: o cupom fiscal que revela os tributos, os prazos das ouvidorias, e o esqueleto do que viria a ser a Lei de Abuso de Autoridade. Para outro qualquer, balanço de aposentadoria precoce. Para ele, mero detalhe de rodapé numa biografia construída em outra gramática.

Porque a gramática de Renan é a do poder, não a da legislação. Quatro vezes presidente do Senado, relator dos megapacotes que o Executivo lhe punha nas mãos, senhor das emendas, demiurgo dos bastidores onde se decide o que jamais aparece no Diário Oficial. Maquiavel, que entendia destas coisas, dir-se-ia satisfeito: o secretário florentino sempre soube que o príncipe inteligente não precisa escrever as regras — basta-lhe controlar quem as escreve, quando se escrevem e a quem servem.

Eis o paradoxo que desconcerta os analistas. Acumulou influência institucional bastante para governar sem nunca ter precisado legislar. A produção normativa, esse trabalho árido de quem se debruça sobre o eleitorado, ele delegou ao tempo e aos outros. Ficou-lhe o que de fato importa nesta República: a engenharia interna, o fio invisível que costura maiorias, a arte de estar sempre na sala onde a decisão acontece.

Diga-se, é um feito. Não o feito legislativo — esse é magro, quase franciscano. Mas o feito da permanência, da sobrevivência, da capacidade de atravessar incólume tantos governos, tantas crises, tantas Operações de nome pomposo. Três leis em trinta e um anos. Há quem chame de pobreza. Eu chamaria de outra coisa: a prova de que, em Brasília, legislar é para os amadores. Os profissionais articulam.

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