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Profetas de bastidor

Faltam dois meses para o fechamento das convenções e já há quem garanta saber, com a precisão de um relojoeiro suíço, quem serão os nove deputados federais que Alagoas mandará a Brasília. Ora, pois. A política, essa velha senhora caprichosa, raramente respeita as projeções de consumo interno que circulam de mão em mão como cartas marcadas. Mas convenhamos: a fotografia de hoje tem o seu encanto, ainda que seja uma fotografia tirada com a câmera trêmula da pressa.

O retrato preliminar distribui as cadeiras com a frieza de um cartório: quatro para a federação PP/União Brasil, duas para o MDB, duas para o PSD e uma para o PSDB/Cidadania. Nessa contabilidade antecipada, Álvaro Lira, Luciano Amaral e Isnaldo Bulhões despontam como os três mais votados, nesta ordem — trindade que parece já ter reservado seus assentos antes mesmo de a urna abrir a primeira gaveta. Diga-se, é cedo demais para tanta certeza, mas o jogo dos bastidores adora cravar resultados antes do apito inicial.

O caso mais saboroso, contudo, é o de Marina JHC. Estreante nas urnas, surge nos prognósticos como uma das forças da disputa, impulsionada não por feitos próprios — afinal, jamais foi candidata — mas pela estrutura do grupo liderado pelo marido. Eis a velha herança política travestida de novidade. Se ela não vingar, alertam os próprios aliados num raro lampejo de honestidade, a chapa inteira “murcha”. Haja flor que dependa de um único vaso para não fenecer.

E enquanto uns medem a altura do salto, outros sequer alcançam o trampolim. A Federação Brasil da Esperança — PT, PV e PCdoB — esbarra na aritmética implacável do quociente eleitoral, esse muro intransponível que separa os que sonham dos que computam. Resta-lhe ampliar a votação de legenda e torcer pelos deuses da matemática. Solidariedade e PRD, por sua vez, correm por fora, na esperança de que o azarão um dia desbanque o favorito — coisa que, na fábula da política, vez ou outra acontece.

Por ora, a disputa se concentra em cerca de vinte nomes que brigam pelas nove vagas, num tabuleiro onde as peças ainda não foram movidas de verdade. As convenções não ocorreram, as chapas podem ganhar e perder protagonistas, e a campanha sequer começou oficialmente. Tudo isso para dizer o óbvio que os profetas de bastidor insistem em ignorar: a eleição ainda está longe. E a urna, essa esfinge muda, tem o péssimo hábito de devorar quem decifrou cedo demais.

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