São 2,54 milhões. Nunca antes, em toda a história de Alagoas, tantos foram chamados ao mesmo ritual da democracia. O número é o maior já registrado pelo estado, e nele há algo de solene, quase litúrgico: cada eleitor um título, cada título uma voz, cada voz um pedaço de soberania repartida em urnas. Ora, pois, não é pouca coisa. E, no entanto, convém olhar o algarismo sem o deslumbramento dos arautos de ocasião. Os números, na política, têm a malícia das estatísticas: dizem muito e prometem mais ainda. Crescer o eleitorado é dilatar a multidão, não necessariamente a consciência. A massa que se avoluma pode ser cidadania robusta ou apenas rebanho ampliado, conforme a mão que conduza o cajado. Maquiavel, que entendia das paixões do povo melhor do que muitos que hoje invocam seu nome em vão, sabia que o número impressiona o príncipe, mas raramente o emancipa. Multiplicar eleitores é fácil; multiplicar discernimento é a tísica que nossos médicos políticos preferem ignorar até quando já é tarde demais. Diga-se: a urna não pensa por quem a deposita. Restam então duas leituras possíveis do mesmo dado. A primeira, otimista, comemora a marca histórica como prova de vitalidade democrática, de um estado que cresce e se faz presente. A segunda, mais cautelosa, lembra que a quantidade jamais redimiu a qualidade — e que o voto, quando se torna mercadoria farta, costuma valer pelo atacado. Fico com a esperança comedida, esta que não vende ilusões. Que os 2,54 milhões sejam, em 2026, mais do que cifra de propaganda: que sejam vontade, escolha, juízo. Porque, ao fim e ao cabo, a democracia não se mede pela soma dos que comparecem, mas pela lucidez dos que decidem. O resto é estatística — e estatística, como se sabe, é a arte de dizer com números aquilo que não se quer dizer com palavras.




