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A direita e o espantalho que ela mesma ergueu

Há frases que parecem saídas de um manual de auto-sabotagem. Ditas com a convicção de quem acredita estar revelando uma verdade incômoda, quando na verdade apenas escancarando a geometria de um tabuleiro que o próprio autor da frase ainda não soube decifrar direito.

“Quem está votando no Flávio, muito provavelmente vai estar entregando a eleição para o Lula.” A sentença circula, é repetida em corredores e grupos de mensagem, ganha a solenidade de quem pronuncia uma advertência histórica. Mas o que ela revela, antes de tudo, é o estado de espírito de uma direita que ainda não resolveu o seu dilema mais antigo: o de não saber distinguir entre o adversário que se combate e o aliado que se devora.

Porque há uma lógica perversa neste argumento. Ela pressupõe que o eleitor deve abdicar de sua preferência genuína para servir a um cálculo estratégico que, convenhamos, já falhou mais de uma vez nas mãos de quem hoje o empunha com tanta soberba. É o velho sofisma do voto útil travestido de sabedoria política — quando na verdade é, quase sempre, o instrumento pelo qual candidaturas menores são imoladas no altar das candidaturas maiores, não por mérito, mas por intimidação.

Maquiavel, que entendia de disputas de poder como poucos, advertia que o príncipe que elimina seus aliados para enfraquecer o inimigo frequentemente descobre, tarde demais, que ficou sozinho no campo de batalha. A fragmentação não é necessariamente derrota — pode ser, ao contrário, o sinal de que o campo está vivo, plural, incapaz de ser reduzido a um único nome, a uma única aposta, a um único rosto.

O eleitor que vota em Flávio — seja lá quem for Flávio neste contexto — não está entregando nada a ninguém. Está exercendo exatamente aquilo que nenhuma frase de corredor deveria suprimir: a escolha. E uma direita que começa a campanha ameaçando seu próprio eleitorado com o espantalho da derrota talvez mereça, ao fim e ao cabo, colher exatamente o que semeia.

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