Há males que se arrastam como a tísica descrita por Maquiavel nos tempos renascentistas — aquela que os médicos só iam tratar quando já era tarde demais. A crise da Santa Casa de Misericórdia de Maceió tem esse feitio: crônica, silenciosa para quem governa, ensurdecedora para quem depende dos seus corredores para sobreviver. Oncopediatria, transplante de fígado, maternidade. Não se trata de abstração orçamentária. Trata-se de gente.
O Ministério Público do Trabalho, na audiência desta quinta-feira, disse o que a Secretaria de Estado da Saúde, chefiada por Gustavo Pontes de Miranda, parecia não querer ouvir. O procurador Rodrigo Raphael Rodrigues de Alencar usou três adjetivos — “decepcionante, revoltante e até certo ponto criminosa” — para qualificar a postura do órgão diante do impasse. Três palavras. Cada uma delas um degrau a mais no abismo entre o que o Estado promete e o que o Estado entrega. O MPT arquivou a mediação e encaminhou o caso para investigação que pode, inclusive, resultar em representação criminal contra gestores da pasta. Redondamente.
Quarenta e uma parcelas vencidas. Nenhum pagamento realizado desde a última audiência. A proposta da Sesau — pagar em suaves prestações mensais o que já deveria ter sido pago — foi rejeitada pela Santa Casa com a frieza de quem já não acredita em promessas. E não é difícil entender por quê. A direção da instituição trouxe ao salão um dado que tem o sabor amargo da ironia mais cruel: o Hospital Sanatório, segundo a administração, teria recebido cerca de 19 milhões de reais dos cofres estaduais — mesmo estando com as portas fechadas. Hospital sem doente, sem leito, sem funcionamento. Com dinheiro. A Santa Casa, que atende quem nenhum outro lugar atende, aguardando valores muito inferiores. Haja estômago.
O governador Paulo Dantas comanda um estado onde, ao que foi apresentado na audiência, o Hospital Carvalho Beltrão recebeu aproximadamente 20 milhões de reais só no mês de maio. Um único mês. Enquanto isso, a instituição que faz transplante de fígado e cuida de crianças com câncer contabiliza seus vencimentos em fila, como quem espera num cartório que nunca abre. Política de saúde, dizem os manuais, é a arte de distribuir recursos escassos com critério e equidade. O que se revelou nesta quinta-feira em Maceió parece ser o exato oposto — a arte de distribuir com a lógica que só os bastidores conhecem.
Resta saber se a investigação que se avizinha terá o fôlego necessário para alcançar não apenas os gestores de plantão, mas a anatomia inteira da negligência. Porque o que está em jogo não é uma disputa contábil entre partes. É a continuidade de serviços que, uma vez interrompidos, não têm substituto. Crianças com câncer não aguardam a resolução de impasses burocráticos. O fígado que precisa de transplante também não.




