Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

A armadilha do favoritismo: por que ter todos os prefeitos não garante nada em Alagoas

Em Alagoas, a política tem o curioso hábito de desmentir os seus próprios profetas. E faz isso com uma constância que beira o método.

A memória recente é instrução suficiente. JL chegou a uma disputa cercado de quase todos — a grande maioria dos prefeitos, vinte e seis dos vinte e sete deputados estaduais, o colégio quase inteiro dos caciques. O resultado, já se sabe, foi outro. Mano Gomes de Barros trilhou caminho semelhante: tinha a máquina, tinha os aliados, tinha o papel passado de quem manda. E foi Lessa quem ganhou, assim como foi Vilela quem derrotou Lira. A história local é pródiga em mostrar que o favoritismo construído nos corredores não é exatamente o mesmo que o favoritismo construído nas ruas.

É nesse contexto que Renan Filho vem costurando sua base — prefeitos, deputados estaduais, o séquito habitual de quem se aproxima do poder que se antecipa como poder. É uma movimentação legítima, até necessária. Mas o paradoxo alagoano permanece de pé: o exército de aliados raramente decide batalha. Decide, quando muito, o convite para o desfile da vitória — que é coisa bem diferente.

Se Renan Filho vencer — e tem condições reais para isso —, a vitória será produto de uma força que é dele, construída por ele, ancorada numa relação própria com o eleitorado. Nenhum prefeito assina esse tipo de título. Nenhum deputado o endossa. O povo, já dizia a mais velha das sabedorias democráticas, não delega o voto: o exerce.

Há, porém, um fator que pode simplificar o caminho. JHC corre por fora tentando construir identidade junto ao eleitor comum, mas enfrenta a dificuldade de não ter ainda uma chapa coesa — com Gaspar e Lira ao Senado como peças que resistem ao encaixe. Uma composição mal resolvida pode custar mais do que qualquer discurso bem feito. Em política, há vitórias que o adversário entrega antes da largada. E há derrotas que o candidato carrega sozinho, independentemente de quantos nomes assinaram o manifesto de apoio.

O pleito, no fim, pertence ao povo. E o povo alagoano já demonstrou que lê — com mais perspicácia do que se supõe — quando um exército marcha com bandeiras e quando marcha com convicção.

VEJA TAMBÉM