Em política, o que embaraça raramente vem de fora. Vem de dentro, trazido pelos próprios aliados, embrulhado em gentilezas que, à luz do dia, revelam o que de fato são: favores que criam obrigações, e obrigações que criam vulnerabilidades. Isnaldo Bulhões, líder do MDB e peça-chave na engrenagem que pretende levar Renan Filho ao Palácio República dos Palmares, aprendeu essa lição da pior maneira possível — estampado no Estadão, ao lado de um banqueiro chamado de “mafioso” pelo próprio ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça.
A reportagem é detalhada e o detalhe, aqui, é o que mortifica. Não é apenas a carona no jatinho de Daniel Vorcaro — esse tipo de conforto aéreo virou quase rotina entre os que transitam nas alturas do poder. O que incomoda de verdade é a articulação legislativa: Isnaldo foi um dos líderes a assinar o requerimento de urgência que tentava turbinar o projeto de lei capaz de dar ao Congresso o poder de demitir presidentes e diretores do Banco Central. Uma manobra que, vista sob a luz do vínculo com o banqueiro, deixa de parecer convicção e passa a ter o cheiro inconfundível de serviço prestado.
Toda pré-candidatura é um edifício frágil nos primeiros andares. Renan Filho vinha construindo o seu com cuidado — o ministério dos Transportes como vitrine, os aliados como alicerce. Isnaldo Bulhões era um desses pilares. Mas pilares têm a inconveniente propriedade de, quando rachados, comprometerem o que sustentam. A oposição alagoana, que até ontem buscava uma brecha, encontrou agora uma porta escancarada: o escândalo nacional do Banco Master como combustível local, a “farra dos mimos” como slogan pronto para ser colado na testa do grupo governista.
O problema não é o desgaste imediato — esse, qualquer campanha com musculatura absorve e trata. O problema é o que o episódio revela sobre os custos invisíveis das redes de influência. Quando um banqueiro oferece o assento do seu avião particular e, mais tarde, o parlamentar se descobre assinando requerimentos que beneficiam esse mesmo banqueiro, o eleitor médio não precisa de diploma em ciência política para entender a equação. Ela é simples, quase didática na sua brutalidade. E é exatamente essa simplicidade que torna o estrago difícil de conter.
Resta saber se Renan Filho terá a habilidade de separar o seu destino eleitoral do tropeço do aliado — ou se o vínculo entre os dois é orgânico demais para esse tipo de cirurgia. Em política, como na medicina, há situações em que o bisturi resolve. E há situações em que o bisturi chegou tarde.




