Há estados na República que funcionam como aquários: a água pode mudar, mas os peixes são sempre os mesmos. Alagoas é um desses aquários — e a pesquisa divulgada nesta sexta-feira pelo instituto Paraná Pesquisas confirma, com a frieza dos números, o que os bastidores já sussurram há meses.
Três nomes disputam duas cadeiras no Senado. Alfredo Gaspar, com 40,4%. Arthur Lira, com 39,8%. Renan Calheiros, com 36,4%. Empate técnico, na margem de dois vírgula sete pontos. Uma fotografia quase simétrica de um equilíbrio que, na política, costuma ser mais instável do que parece — porque três peixes grandes num aquário pequeno inevitavelmente chocam as barbatanas.
O que o levantamento não capta, mas os números sugerem, é a estranha geometria desse triângulo. Gaspar é a novidade relativa, o deputado que ganhou projeção nacional ao assumir a relatoria da CPMI do INSS — e cujo relatório, é bom lembrar, não sobreviveu ao racha entre governo e oposição na própria comissão. Um protagonismo com desfecho truncado, que, ao que parece, não custou caro nas urnas alagoanas. Lira presidiu a Câmara com a desenvoltura de quem sabe que o plenário é apenas o palco — o jogo verdadeiro se faz nos corredores. Renan ocupa cadeira no Senado desde 1995: três décadas de mandato, o que o coloca numa categoria à parte, a dos que não chegaram ao poder, mas nele simplesmente habitam, como se a política fosse herança e não escolha.
Três figuras que conhecem cada vírgula do regimento, cada corredor do Congresso, cada atalho que a República permite — e os três disputam o mesmo chão alagoano, com a multidão de 1.400 eleitores ouvidos em 52 municípios a arbitrar, entre 28 de junho e 1º de julho, quem fica e quem sai. Há algo quase grego na cena: a hybris de gigantes que se apertam num espaço que, no papel, só comporta dois.
O resultado desta corrida não chegará cedo. Mas já chegou a conclusão mais importante: em Alagoas, a renovação política, quando vem, parece ter o costume de respeitar os titulares.
Sobre a pesquisa
O levantamento foi feito entre os dias 28 de junho e 1º de julho e ouviu 1.400 eleitores em 52 municípios de Alagoas. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o nº AL04491/2026.
Fonte: Veja




