É método Alagoas, às vésperas de mais uma disputa ao governo do estado, vai ensaiando os passos de uma dança que todos conhecem de cor. O coreógrafo muda, o salão muda, mas os movimentos são os mesmos de sempre — e o público, esse sim, permanece o mesmo: impaciente, resignado, convencido no fundo de que o espetáculo vai terminar como os anteriores.
As pesquisas já desenham o segundo turno no horizonte. E é exatamente aí, nesse intervalo entre o primeiro e o segundo ato, que a política alagoana revela seu talento mais peculiar: o de fabricar personagens para destruir outros personagens. Candidaturas que não existem para vencer, mas para ferir. Nomes lançados como pedras — não para construir, mas para demolir reputações alheias. Há uma engenharia específica nisso, com planta baixa, executor e financiador.
O laranja, essa figura quase folclórica da política nacional, encontra em Alagoas um habitat particularmente acolhedor. Veste-se de candidato, abriga-se na sigla de algum partido sem expressão — desses que existem no papel e nas planilhas do TSE —, e recebe, com discrição admirável, o dinheiro necessário para cumprir sua missão. O rastro da grana, claro, evapora. Ninguém o segue. A Justiça Eleitoral observa, registra e, no fim, não contém. Nunca conteve.
É que o laranja não é anomalia do sistema. É o sistema operando com eficiência. Não há improviso na candidatura que nasce para sujar e não para governar — há método, há cálculo, há interesse de quem está por trás e jamais aparece na fotografia. Identificá-los não é difícil para quem conhece o jogo por dentro. O difícil — o que Alagoas ainda não demonstrou saber fazer — é punir.
E assim, com a naturalidade de quem já não se surpreende, o estado se prepara para mais uma temporada eleitoral. Os laranjas já estão nos bastidores, bem regados e bem orientados. O terreno, fértil como sempre foi, aguarda. E a eleição, que poderia ser uma disputa de projetos, vai ganhando os contornos de uma guerra de narrativas — onde alguns dos combatentes nem sabem, ao certo, para quem estão lutando.




