Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

Saúde saqueada

Há uma certa geometria cruel na falência pública. Ela não acontece de uma vez, com estrondo e destroços visíveis. Vai se instalando em silêncio, prateleira por prateleira, corredor por corredor, até que o posto de saúde amanhece sem remédio e o doente descobre, na própria carne, que o Estado o abandonou há muito mais tempo do que ele imaginava.

É o que se passa em Alagoas. A Polícia Federal investiga o desvio de cem milhões de reais da saúde pública — cem milhões que não compraram compressas, não pagaram plantonistas, não quitaram as dívidas com a Santa Casa, com o Hospital Veredas, com as UPAs que atendem quem não tem outra porta para bater. O dinheiro foi, mas não foi para o doente. Foi, ao que apuram as investigações, para custear o conforto da amante do secretário. Uma versão contemporânea e sem nenhuma elegância do droit du seigneur: o senhor toma para si o que é de todos, e os súditos ficam na fila, sem soro e sem resposta.

O paradoxo é quase literário, se não fosse trágico demais para merecer esse adjetivo. A mesma máquina pública que deveria ser a última fronteira do cidadão sem plano de saúde — o recurso final, a rede que impede a queda livre — converte-se no instrumento da própria espoliação. O remédio some do estoque. A conta do hospital fica em aberto. E o dinheiro reaparece longe dali, em outro endereço, cumprindo outra função que não a que lhe foi determinada pela lei e pela decência.

Não é novidade, dirão os cínicos habituais. E é justamente aí que mora o perigo maior: na naturalização. Na resignação que confunde a reincidência do crime com a sua inevitabilidade. Uma sociedade que aprende a conviver com a pilhagem da saúde pública não chegou à maturidade política — regrediu a um estágio anterior a ela, onde o poder não precisa nem se disfarçar para roubar o que é do povo.

A demanda por intervenção federal é o grito de quem já não acredita que a casa tem condições de se arrumar sozinha. Pode-se discutir o instrumento; o diagnóstico, porém, é difícil de contestar. Quando os investigadores chegam e os números aparecem à luz, o que se encontra não é uma falha de gestão, não é incompetência técnica, não é a tragédia impessoal do subfinanciamento. O que se encontra é escolha. Alguém escolheu. E escolheu errado — de propósito.

VEJA TAMBÉM