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A caneta que assina pensando na intimação

Há uma sabedoria antiga que os corredores do poder ensinam sem que ninguém precise escrever no quadro-negro: quem governa com um olho no presente e outro no calendário eleitoral já admite, em silêncio, que o presente é passageiro.

É exatamente o que se vê nos últimos meses do governo Paulo Dantas. A Procuradoria-Geral do Estado trabalha em ritmo de plantão, os atos administrativos são medidos com régua e esquadro, e cada detalhe menor recebe a atenção que, em outras circunstâncias, talvez não merecesse. Não é zelo institucional. É prudência estratégica — e há uma diferença considerável entre as duas coisas.

A lógica é tão velha quanto o próprio poder: o adversário que vence uma eleição invariavelmente convoca a auditoria. O pente fino é quase um ritual de posse. Sabe-o o time de Dantas. Por isso a engrenagem jurídica gira mais depressa, não para servir melhor ao Estado, mas para deixar o menor rastro possível a ser vasculhado por mãos adversárias.

Há, contudo, uma cláusula de escape no cálculo. Se Renan Filho for confirmado como sucessor, o clima muda de figura. Aliados não costumam abrir gavetas uns dos outros com essa voracidade. A continuidade política tem, entre seus muitos atributos, o de ser um escudo discreto e eficiente. E aí o esforço dobrado da PGE terá servido, no fundo, apenas como exercício de precaução — útil, mas talvez desnecessário.

O que resta de revelador nessa cena não é o fato em si — todo governo que se aproxima do fim adota alguma forma de cautela —, mas a nitidez com que ela expõe a natureza do jogo. Governar, no ato final, vira gestão do próprio legado jurídico. A caneta assina pensando menos no bem público do que na eventual intimação. É a política reduzida à sua expressão mais defensiva: não fazer o bem, mas evitar o mal que pode ser provado.
Fonte: Ricardo Mota

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