Há frases que, ditas em público, iluminam mais do que pretendem. Carregam dentro de si, além do golpe eleitoral imediato, um diagnóstico inteiro sobre a política de um lugar. Quando JHC acusa Renan Filho de se comportar como dono de Alagoas — e apresenta como prova um negócio de dois bilhões de reais envolvendo a água do povo —, o ex-prefeito não está apenas apontando um adversário. Está descrevendo um tipo.
O tipo é antigo. Existe desde que o Brasil aprendeu a misturar poder público com patrimônio privado, desde que os coronéis descobriram que o cargo é a melhor das propriedades — porque se renova, porque não se inventaria, porque seus frutos raramente entram em inventário. O dono de estado não ocupa o governo: ele o habita como quem habita a própria casa, com a naturalidade tranquila de quem não imagina que as paredes possam pertencer a outro.
A água é o símbolo perfeito para esta história. Não o orçamento abstrato, não a folha de pagamento, não as licitações que ninguém entende. A água — que é de todos, que é vida, que corre antes de qualquer decreto e resistirá a qualquer mandato. Vender a água do povo por dois bilhões de reais, na narrativa que JHC constrói, é o gesto máximo da privatização do público: não apenas o que o estado administra, mas o que a natureza depositou como bem coletivo.
Renan Filho, que herdou o sobrenome mais pesado da política alagoana, carrega consigo o fardo e o benefício de uma linhagem que há décadas sabe como sobreviver às tempestades eleitorais. JHC sabe disso melhor do que ninguém — e por isso atira na herança, não apenas no herdeiro. Acusar alguém de se achar dono de um estado inteiro é, na linguagem da política nordestina, a mais grave das imputações: é dizer que o adversário não joga o jogo, porque acredita que o jogo lhe pertence.
O que está em disputa em Alagoas, portanto, não é apenas uma cadeira de senador ou um projeto de governo. É uma questão de origem: a quem pertence, afinal, o poder público? A resposta mais honesta — que pertence ao povo — é também a mais improvável de ser praticada. O povo, nessa equação, aparece sempre como argumento. Raramente como beneficiário.




