Neutralidade, no vocabulário da política brasileira, raramente significa o que o dicionário diz. Significa, quase sempre, a arte de apostar em todos os cavalos sem pagar pelo ingresso. O MDB, partido que já teve estadistas capazes de mover o país, acaba de elevar essa arte à condição de doutrina oficial: declarou-se neutro na disputa presidencial e liberou os diretórios estaduais para escolherem seus próprios caminhos. Uma federação de conveniências, cada uma delas apontando para o sol que mais aquece.
Há uma elegância perversa nessa manobra. O partido não rompe com ninguém porque não está com ninguém. Não ofende a nenhum polo porque não habita nenhum polo. Flutua. É a posição mais confortável do tabuleiro — e, não por acaso, a menos respeitável.
Renan Filho, herdeiro de uma das famílias mais longevas da política nacional, endossou a neutralidade com a desenvoltura de quem assina um formulário de rotina. O senador alagoano, que construiu trajetória própria e tentou se descolar da sombra do pai, encontra-se agora num limbo de geometria variável: nem aqui, nem lá, nem em lugar nenhum que comprometa o futuro. Dizem os que sabem que “neutro não é só shampoo de bebê” — mas o que fazem com a frase é transformá-la em autobiografia.
O problema da neutralidade estratégica é que ela envelhece mal. Funciona no inverno das indefinições, quando os blocos ainda se formam e ninguém sabe ao certo quem vai chegar à final. Mas o calendário eleitoral é impiedoso: a hora da escolha sempre chega, e os que ficaram em cima do muro descobrem, invariavelmente, que o muro não é de pedra — é de areia. O MDB já viveu esse roteiro antes. Conhece o enredo. Escolhe repeti-lo.
Resta saber quantos diretórios estaduais levarão a neutralidade a sério e quantos já negociam, discretamente, a sua rendição particular. A história do partido sugere a segunda hipótese. E a história, como se sabe, é uma mestra que cobra caro pela lição quando o aluno finge que não estava na aula.




