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A raposa solta

A política alagoana nunca foi para amadores. É território de xadrez jogado com peças vivas, onde cada movimento carrega um nome, uma dívida e uma promessa que só vale até a próxima rodada.

O que se viu neste final de semana, com a convenção do PP e a retirada de Alfredo Gaspar da disputa ao Senado, foi uma daquelas operações de bastidor que raramente aparecem na ata — mas que estão inteiras, para quem sabe ler, exatamente entre as linhas do documento oficial. Arthur Lira fechou com o PL. Os Bolsonaro entregaram Alfredo. JHC encaixou Marina Cândia onde Alfredo estaria. Tudo no mesmo giro, tudo no mesmo compasso, como numa coreografia ensaiada às escuras.

O raciocínio do lirismo — como se chama, com alguma ironia, o entorno de Lira — é de uma frieza geométrica: Marina depende do marido para votar; Alfredo carregava votos próprios, de opinião, os mais difíceis de disputar e os mais perigosos de enfrentar. Tirar o candidato forte e colocar no lugar a candidata dependente não é crueldade — é aritmética.

Mas a equação, como toda equação política, tem variáveis que o calculista prefere ignorar. Alfredo Gaspar solto no tabuleiro, pedindo voto para Arthur na região metropolitana, é um elemento que os estrategistas do acordo precisarão monitorar com cuidado. A Grande Maceió é, historicamente, o território mais refratário ao domínio dos Lira e dos Calheiros — e é justamente ali que o ex-candidato ao Senado acumula seu maior capital simbólico. Quem soltou a raposa no galinheiro pode ter calculado errado o tamanho da raposa.

No fim, o que esta operação revela não é novidade: em Alagoas, como em todo lugar onde a política ainda se faz pelo método antigo, ninguém sai do páreo de graça. Alfredo saiu — mas saiu com moeda no bolso e liberdade de movimento. Se essa é uma vitória de JHC ou uma bomba de retardo, só o calendário eleitoral vai responder.

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