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A régua e o interior

Há trajetórias políticas que se narram quase sozinhas, tamanha a geometria que apresentam — uma progressão tão regular e ascendente que desafia a lei comum da política brasileira, onde o movimento natural das coisas tende ao acidente, ao tropeço, à queda súbita e muitas vezes ao ridículo. JHC é uma dessas raras diferenças que de vez em quando o jogo eleitoral produz: o homem que chegou à Assembleia Legislativa de Alagoas aos 23 anos e, em linha quase reta, foi empilhando mandatos, votos e recordes com a disciplina de quem não desperdiça jogada.

Deputado estadual, deputado federal mais votado do estado, reeleito com votação proporcional entre as maiores do país, prefeito da capital, reeleito prefeito em primeiro turno com 83,25% dos votos válidos — a maior votação da história de Maceió. Lidos em sequência, esses números têm qualquer coisa de inverossímil, como se tivessem sido extraídos de um currículo fictício inventado por algum marqueteiro generoso. Não foram. São os fatos, com a frieza deles.

A convenção desta quarta-feira não foi, portanto, uma surpresa. Foi a formalização de algo que a aritmética política de Alagoas já vinha sugerindo há algum tempo: que um homem capaz de convencer mais de quatro em cada cinco eleitores da capital a votarem nele já não cabe, de maneira alguma, dentro dos limites de uma prefeitura. O passo em direção ao Palácio República dos Palmares não é ambição desarrazoada — é, para quem lê o jogo com atenção, a consequência lógica de uma carreira sem grandes fraturas visíveis.

O que convém examinar, agora que a candidatura deixou de ser especulação para se tornar realidade, é justamente o que esses números não revelam. Uma eleição municipal, por mais expressiva que seja, se dá em território conhecido, com adversários identificados, com um eleitorado que já frequentou o candidato nas calçadas, nas escolas, nos postos de saúde. O governo do estado é outro terreno. É outra escala de poder, outra teia de interesses, outra correlação de forças — e Alagoas, em particular, tem tradições políticas antigas e resistentes, construídas ao longo de décadas por famílias e grupos que não costumam render posições sem disputa.

Aos 39 anos, JHC chega a outubro carregando o peso generoso de uma reputação eleitoral difícil de contestar. Mas carregando também a responsabilidade de provar que o que funcionou tão bem em Maceió tem fôlego para percorrer os 102 municípios do estado. É aí que a trajetória impecável encontra o seu exame mais sério — não nas convenções, não nos palanques festivos, mas no interior mais distante, onde o voto tem raízes mais fundas e memórias mais longas.

Será uma eleição. Não um plebiscito.

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