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A diferença entre prometer e planejar

Há propostas que cabem numa guardanapo e outras que pedem uma enciclopédia. Nenhum dos dois formatos garante, por si só, um bom governo. Mas numa disputa eleitoral, o tamanho e a densidade do que se apresenta ao eleitor diz algo sobre o grau de seriedade com que o candidato trata a coisa pública — e sobre o quanto acredita que o eleitor merece mais do que uma promessa de três linhas.

O contraste entre os planos de governo de Renan Filho e JHC para 2026 é, nesse sentido, didático. De um lado, três páginas. Do outro, cinquenta e três. Renan, ex-governador que conhece a máquina por dentro, entregou um documento que cabe num intervalo comercial: cinquenta e três propostas em três páginas, o que dá, na média aritmética, pouco mais de meia linha por compromisso com Alagoas. Combater o analfabetismo adulto, criar um bairro de inovação no Jaraguá, ampliar a agricultura familiar — tudo tratado com a economia verbal de quem escreve telegrama, não plano de governo.

JHC, por sua vez, chegou com o “Alagoas Gigante” — cinquenta e três páginas construídas, segundo o documento, a partir de meses de escuta — e teve o cuidado de organizar o programa em sete eixos para os 102 municípios, com diagnóstico, prioridades e, em algumas propostas de infraestrutura, até a especificação do território atendido, do estágio de desenvolvimento, da estimativa de custo e do prazo indicativo. É a diferença entre prometer e explicar. Entre anunciar e planejar.

Seria ingênuo, claro, confundir volume com virtude. Governos foram destruídos por planos esplêndidos e salvos por instintos práticos. Mas o eleitor que se dá ao trabalho de ler os dois documentos lado a lado encontrará algo que vai além da quantidade de páginas: encontrará pistas sobre como cada candidato concebe o seu papel diante do Estado. Um resume; o outro detalha. Um confia no prestígio acumulado; o outro aposta na construção de um argumento. Renan, herdeiro de um capital político considerável e de uma passagem já documentada pelo Executivo estadual, parece calcular que o eleitor sabe quem ele é e dispensa apresentações. JHC, por sua vez, trata a campanha como um caso a ser provado — e entrega o processo, não apenas o veredicto.

Se a disputa vai se decidir pela profundidade do planejamento apresentado ou pela força das lideranças em campo, o tempo dirá. O que já se pode dizer é que a assimetria entre os dois documentos oferece munição farta para o debate que vem por aí. E que Renan, ao optar pela síntese, entregou ao adversário o argumento mais cômodo possível: o de que, quando a conversa ficar difícil, bastará abrir as três páginas e perguntar onde está o resto.

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