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Briga pra chamar polícia e médico

Há no ar alagoas um entusiasmo que merece ao menos uma pausa reflexiva antes de virar euforia.

Uma figura das redes sociais — hábil nos vídeos, fluente no algoritmo, com voto espontâneo ao Senado boiando nos levantamentos — começa a ser tratada como revelação política. E pode vir a ser, de fato. O tempo e as urnas são os únicos juízes sem apelação. Mas, por ora, o que existe é uma promessa. Uma aposta. Um nome que nunca desceu ao campo e jamais enfrentou o sufrágio, nem na escala mais modesta de uma eleição para vereador.

O problema não é ela. O problema é quem está do outro lado.

Renan Calheiros tem na política o único emprego que exerceu em quase cinquenta anos de vida profissional. Cinquenta anos. Ela tem trinta e seis de idade. Arthur Lira aprendeu as entranhas do jogo antes mesmo de dominar a própria fala — criado no idioma do poder, respirou barganha e articulação como se fossem o ar da infância, porque eram. São homens que conhecem cada atalho, cada armadilha, cada silêncio estratégico do xadrez político nordestino com a intimidade de quem ajudou a desenhar o tabuleiro.

Não se trata de torcer contra a novidade. Trata-se de não confundir popularidade digital com capital político real. As redes sociais criam holofotes extraordinários, mas holofote não é voto, e voto não é mandato, e mandato não é poder. São etapas distintas, cada uma com seu próprio preço. Contra veteranos da envergadura de Calheiros e Lira, pular qualquer degrau dessa escada tem consequências que o algoritmo não amortece.

Como disse Chico Buarque, em verso que aqui cabe com precisão cirúrgica, é briga pra chamar polícia e médico. A frase, dita de outro modo e em outro contexto, resume com exatidão o tamanho do abismo entre uma estrela das redes e dois senhores que transformaram a sobrevivência política em ofício secular. A novidade pode surpreender — a história registra surpresas maiores. Mas que entre no ringue sem ilusões sobre a categoria dos adversários. Eles não costumam perder por ingenuidade de quem chega.

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