Há cidades que guardam rancores com a mesma fidelidade com que guardam tradições. Maceió é uma delas. E nenhum rancor ali fermentou por tanto tempo, com tanta consistência, quanto o que a capital nutre pela família Calheiros — esse clã que durante décadas administrou Alagoas inteira como se administra uma fazenda de herança: com mão firme, olho atento nos currais e porteira bem fechada para os de fora.
O problema, para Renan Filho, é que a porteira de Maceió nunca se abriu de bom grado para os seus. A rejeição ao sobrenome não é capricho de oposição — é sedimento histórico. Camadas e camadas de desconfiança acumuladas sobre o mesmo terreno, impermeabilizadas pelo tempo.
É nesse solo endurecido que JHC planta sua candidatura ao governo estadual. O prefeito da capital tem o que os estrategistas adoram e os adversários temem: uma base territorial sólida exatamente onde o oponente sangra. Vencer em Maceió, ou ao menos reduzir ali a sangria, pode ser o fator que transforma uma disputa equilibrada numa vantagem real na reta final.
Mas o xadrez tem nuances que os mapas eleitorais nem sempre revelam. Renan Calheiros — o senador, o pai, o patriarca da operação — carrega um peso que pode, ao mesmo tempo, mobilizar o interior alagoano e encalhar a candidatura do filho na capital. Força e fardo no mesmo sobrenome. Não é pouca contradição para administrar numa campanha.
A história política brasileira está repleta de herdeiros que tropeçaram na sombra do pai. Não porque fossem menores — às vezes eram até maiores —, mas porque a sombra era longa demais, escura demais, e projetada sobre os lugares errados. Renan Filho sabe disso. JHC também sabe. E Maceió, essa cidade de memória longa e paciência curta, vai cobrar de ambos a conta no momento exato.




