Há uma Lei Física que a política conhece melhor do que qualquer laboratório: a pressão aumenta conforme o espaço diminui. E o espaço, nesta reta final de campanha, está encolhendo com a velocidade de quem percebe tarde demais que assinou mais cheques do que comporta o talão.
Os acordos de aliança têm prazo de validade. Não está escrito na ata de nenhuma reunião, não consta de nenhum contrato lavrado em cartório, mas todo veterano do ofício sabe que a data de vencimento existe — e que ela coincide, com perfeita e impiedosa regularidade, com a aproximação do dia da eleição.
É quando os prazos vencem, as cobranças chegam juntas e a conta que parecia abstrata na hora do aperto de mãos adquire subitamente a consistência brutal do concreto.
Fidelidade política, convém lembrar, é uma planta que exige rega constante. Quando o dinheiro escasseia e a estrutura prometida não aparece, ela murcha com uma rapidez que envergonharia qualquer outra espécie de lealdade.
As lideranças começam a reclamar em voz baixa — depois em voz alta — e o apoio que parecia sólido como pedra revela-se areia molhada. Então vêm as “traições”, sempre narradas com a solenidade de quem foi surpreendido, embora ninguém, absolutamente ninguém, se surpreenda de verdade.
A tradição é longa e o roteiro, invariável. Quem não cumpre o combinado invoca princípios. Quem abandona a aliança invoca a consciência. Ambos têm razão, dentro da sua própria geometria moral — que é a geometria dos espelhos curvos, onde toda figura aparece levemente distorcida a favor de quem olha.
O dinheiro que falta nunca é mencionado pelos seus nomes verdadeiros; ganha eufemismos de circunstância, vira “falta de condições”, “projeto político divergente”, “momento de reflexão”.
Na reta final, dinheiro, estrutura e compromisso formam uma trindade indissolúvel. Retire um dos três e os outros dois perdem o sentido.
É o que está acontecendo agora, nos bastidores que o palanque finge não ter, nas conversas que não aparecem nos programas eleitorais, no murmúrio crescente que antecede o barulho.
A eleição se aproxima. Os acordos vencem. E a tensão, essa sim, está sendo cumprida com pontualidade exemplar.




