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Cansaço do ciclo

Os números não mentem, mas às vezes têm a cortesia de mentir devagar. Em Alagoas, porém, a pesquisa do Instituto Ranking não se deu a esse pudor: JHC, o ex-prefeito de Maceió, aparece com 46,41% das intenções de voto no cenário estimulado, o que, descontados brancos, nulos e os que encolheram os ombros, já o coloca acima da fronteira dos cinquenta por cento dos votos válidos. Matematicamente, a eleição poderia terminar antes de começar.

Renan Filho, que herdou o estado como quem herda um sobrado colonial — com os móveis no lugar, as paredes caiadas e os credores à porta —, aparece com 33,88%. É uma fatia considerável, mas insuficiente quando o adversário supera, sozinho, a soma de todos os que restaram no páreo. Os outros dois candidatos, Lenilda Luna e Márcio Jambo, dividem entre si menos de dois por cento, o que os situa naquela região pantanosa da estatística eleitoral onde a presença é mais declaratória do que efetiva.

O dado mais revelador, no entanto, não está nas intenções de voto — está na pergunta sobre o modelo de gestão. Perguntados se Alagoas deveria manter o rumo ou virar o leme, 54,33% dos entrevistados responderam que o estado precisa mudar. Mais da metade. É um número que o MDB deve ter recebido como quem recebe uma carta do cartório: formal, fria e com prazo de resposta. A continuidade, defendida por 36,03%, não convence a maioria — e a maioria, em democracia, costuma ter a última palavra.

Há, decerto, o dado que tempera o entusiasmo: na pesquisa espontânea, quando ninguém apresenta lista aos entrevistados, 57,05% ainda não sabem — ou não disseram — em quem votariam. É uma imensidão de indecisão que permanece suspensa sobre o tablado. O jogo tem lances pela frente. Mas quem leva vantagem no escore, no ritmo e na percepção pública raramente perde porque o adversário ainda nutre esperanças no vestiário.

Alagoas, terra que ao longo de décadas elegeu o mesmo elenco com roupagens trocadas, parece atravessar um daqueles raros momentos em que o eleitor decide que o cansaço é um argumento político. Que a fadiga com o familiar pode ser mais poderosa do que a desconfiança com o novo. Se os números de agosto resistirem até outubro, JHC não apenas vence uma eleição — encerra um ciclo. E ciclos encerrados, como bem sabia Vico, costumam levar consigo mais do que os governantes acreditam poder salvar.

O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número AL-03739/2026.

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