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A urna tem perguntas

A eleição em Alagoas, dizem as pesquisas internas, finalmente pegou fogo. Tarde, mas pegou. E o fogo desta vez tem uma qualidade diferente das fogueiras anteriores: queima em dois focos simultâneos, cada um alimentado por lenha própria, e o eleitor que tenta se aquecer num deles corre o risco de chamuscar a roupa no outro.

É uma eleição híbrida — palavra que os estrategistas usam com certo orgulho tecnológico para descrever o casamento entre a campanha de rua e as redes sociais. Acontece que a rua, neste ciclo, perdeu sua vocação persuasiva e virou cenário. O comício existe para gerar imagem de comício. O abraço existe para gerar imagem de abraço. A política de carne e osso foi terceirizada ao pixel, e o que resta do calçadão é pouco mais que um estúdio a céu aberto.

No meio desse carnaval digital, Renan Calheiros enfrenta, pela primeira vez em décadas, uma eleição que não obedece às suas velhas geometrias. Em Maceió, a resistência cresce. No sertão, ainda há fidelidade — essa fidelidade antiga, quase feudal, que resiste ao tempo como as paredes de taipa resistem à seca. Mas a capital pesa, e o senador mais longevo de Alagoas sabe disso melhor do que qualquer analista: sente no osso a diferença entre uma eleição administrável e uma eleição perigosa. Esta é a segunda espécie. A mais difícil da sua trajetória, por qualquer medida honesta que se queira usar.

A dupla polarização da corrida ao Senado fez o que as polarizações costumam fazer: sugou o oxigênio dos candidatos do meio. Davi Davino e José Wanderley viram a linha de corte subir sem que suas campanhas tivessem pernas para acompanhar. Wanderley, lançado por Calheiros com a missão cirúrgica de sangrar Alfredo Gaspar em Maceió, acaba de ver seu alvo migrar para outra disputa — Gaspar agora corre pela presidência na chapa bolsonarista. O tiro foi calibrado para um alvo que se moveu. Paulo Dantas e Marcelo Victor, cada um com seus próprios fardos, precisam ser ao mesmo tempo fiadores e candidatos, sem que nenhum desses papéis possa ser exercido com inteireza enquanto o outro exige atenção.

Ainda há muito chão. E eleição, como dizia um velho político nordestino que não cabia nos livros de ciência política mas entendia muito de gente, só termina quando termina. Mas o que o momento revela é um rearranjo genuíno — não a farsa de sempre, com os mesmos destinos já escritos antes do primeiro comício. Desta vez, a urna tem perguntas para fazer.

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