Há um momento na política em que os números cessam de ser números e se tornam outra coisa — algo que se sente antes de ser contado, que circula nas ruas antes de aparecer nas planilhas. É quando o desejo de mudança deixa de ser retórica de palanque e se converte em força real, tangível, quase física. Alagoas parece viver esse momento agora, na reta final da disputa, com JHC reunindo ao seu redor aquela energia que os estrategistas tentam fabricar e que, quando é genuína, não se fabrica.
O que os bastidores contam — e os bastidores raramente mentem, mesmo quando mentem em tudo o mais — é que a campanha de JHC consolidou três pilares que raramente coexistem na mesma candidatura ao mesmo tempo: a expectativa de vitória, o desejo de mudança e a força popular. É uma combinação improvável, quase ingrata de se conquistar, porque cada um desses elementos tende a corroer o outro quando mal administrado. Candidaturas que inspiram mudança frequentemente assustam. Candidaturas que mobilizam as ruas com frequência irritam as elites. Candidaturas que cheiram a vitória costumam atrair os oportunistas que espantam os genuínos. JHC, ao que tudo indica, conseguiu manter os três em equilíbrio.
Há uma espécie de geometria delicada na política eleitoral que Maquiavel teria reconhecido sem dificuldade: o momento em que a conjunção de forças supera a soma das partes e o candidato deixa de ser apenas um nome na urna para se tornar um atalho coletivo — aquele pelo qual uma cidade aposta, sem garantias, que o amanhã pode ter forma diferente do ontem.
É essa aposta que parece estar sendo feita agora. E apostas assim, quando tomam corpo de verdade, têm a estranha propriedade de se autocumprir. O eleitor que acredita que o outro vai ganhar frequentemente fica em casa. O que acredita que pode mudar vai às urnas. A expectativa de vitória, nesse sentido, não é apenas efeito — é também causa.
Falta, claro, o que sempre falta: a prova dos fatos. A política é uma disciplina que desafia prognósticos com entusiasmo. Mas o que se lê nos movimentos desta reta final é que JHC entra no momento decisivo com vento a seu favor, com as ruas dando sinais que os marqueteiros não conseguem simular e com aquele intangível que, na falta de nome melhor, se chama ímpeto. Resta saber se o domingo confirmará o que a semana está anunciando.





