A cerimônia de posse ainda não aconteceu, e já começa o espetáculo mais antigo da república — a partilha. JHC, o governador eleito de Alagoas, senta-se à mesa de negociação antes mesmo de sentar-se na cadeira do Palácio. É assim desde sempre. O poder, no Brasil, não espera o protocolo.
Montar um secretariado é, ao mesmo tempo, a tarefa mais prosaica e a mais reveladora da vida política. Prosaica porque todo governador a enfrenta. Reveladora porque é nela que se lê, com clareza que nenhum discurso de campanha oferece, a hierarquia real das lealdades — quem de fato sustentou a candidatura, quem chegou perto no último momento, quem cobrou o preço e quem foi esquecido na gaveta das promessas vagas.
Os aliados que hoje negociam espaço no governo de Alagoas não chegam com humildade de rogantes. Chegam com a conta na mão. Cada apoio tem o seu metro quadrado, cada gesto de lealdade eleitoral tem a sua conversão em cargo, em pasta, em influência distribuída pelos corredores do funcionalismo. É a economia política dos afetos, e ela tem câmbio fixo.
A questão que fica — e que sempre fica — é saber quantos desses aliados acomodados serão parceiros de governo e quantos serão apenas hóspedes incômodos, instalados nos andares nobres do poder público com agenda própria e lealdades divisíveis. JHC terá de distinguir, com precisão cirúrgica, os que vieram para construir dos que vieram para extrair. Raramente essa distinção é simples. Quase nunca os interessados usam plaquinha.
Alagoas espera. E enquanto espera, observa. O secretariado que surgir desta negociação será o primeiro retrato verdadeiro do novo governo — muito antes do primeiro discurso oficial, muito antes do primeiro projeto enviado à Assembleia. É nos nomes, e não nas palavras, que se decifra a intenção.




