Entre quinta-feira e terça-feira, a Assembleia Legislativa de Alagoas publicou 221 atos de pessoal em quatro edições consecutivas do Diário Oficial. Cento e trinta e cinco nomeações, oitenta exonerações, seis anulações. Uma aritmética frenética que, a quem conhece os rituais da casa, não surpreende — mas que, contemplada de fora, tem algo de vertiginoso, quase onírico.
Há uma liturgia antiga nas assembleias brasileiras. O Diário Oficial funciona, nesses momentos, como um órgão vivo e insaciável: inspira nomes, expira nomes, e de vez em quando engole os próprios atos que acabou de publicar. As seis nomeações anuladas são, nesse sentido, o tropeço que humaniza a coreografia — o sinal de que, por trás da máquina burocrática, há mãos que hesitam, recuam, corrigem a rota.
O saldo acumulado é de 55 nomeações a mais do que exonerações. Quarenta e nove, se descontadas as anulações. Números que, sozinhos, não dizem se o quadro efetivo cresceu, nem o que isso representa para a folha de pagamento. A imprecisão é, ela própria, reveladora: alguns nomes aparecem em mais de um ato, o que significa que a mesma pessoa pode ter sido exonerada de um cargo e nomeada para outro na mesma semana, descrevendo uma trajetória elíptica que começa e termina na mesma órbita do poder.
Chama atenção o ritmo. Somente na terça-feira, foram 32 nomeações e 25 exonerações em um único dia. Há uma cadência industrial nisso — uma linha de montagem de vínculos e desvinculações que, publicitada no Diário Oficial, adquire verniz de legalidade sem necessariamente oferecer clareza. Transparência e opacidade, afinal, não são opostos irreconciliáveis: é possível publicar tudo e, ao mesmo tempo, revelar muito pouco.
O problema não é a movimentação em si — casas legislativas têm prerrogativas e cargos comissionados existem em toda democracia. O problema é quando o volume e a velocidade dos atos se tornam fins em si mesmos, quando o Diário Oficial deixa de ser instrumento de controle público e passa a ser apenas o cartório de uma negociação que aconteceu em outro lugar. Cento e trinta e cinco nomeações em quatro edições. O impacto real sobre a folha, como reconhece o próprio levantamento, permanece indeterminado. E é exatamente aí, nesse espaço entre o publicado e o compreensível, que costuma morar o que ninguém quer que se saiba.




