⛅
Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

O guarda-chuva e o temporal

 

Mal se apagaram as urnas do segundo turno e Alagoas já ajusta os relógios para 2028. É assim mesmo: no dia seguinte à apuração, a política troca de assunto sem trocar de personagens. Rodrigo Cunha terá o apoio do governador eleito JHC para disputar a reeleição, e a lista dos que pretendem atrapalhá-lo tem o comprimento de uma procissão — Renan Filho, Alfredo Gaspar, Rafael Brito, Cabo Bebeto, Fábio Costa, Davi Davino Filho, Paulo Dantas. O PT, que resolveu trabalhar por candidatura própria, chega atrasado à fila mas chega animado. Apoio de governador, convém lembrar, é guarda-chuva: protege da chuva fina, não do temporal.

Os números do segundo turno em Maceió merecem leitura demorada, porque contam uma história que os discursos de palanque não contam. Bolsonaro venceu com 52,01%, abaixo dos 52,36% do primeiro turno. Lula saltou de 41,09% para 47,99%. Um ganhou e encolheu; o outro perdeu e cresceu. Para quem sabe ler planilha eleitoral, isso não é detalhe — é bilhete deixado em cima da mesa, convidando a esquerda a arriscar um nome próprio na capital.

No interior, a conta chega mais rápido e mais salgada. Prefeitos que subiram no palanque de Flávio Bolsonaro, pediram voto de microfone em punho e perderam a eleição em suas próprias cidades terão agora de encarar o eleitorado lulista que ajudaram a contrariar. Não há discurso que conserte aritmética. Quem aposta todas as fichas numa única roleta precisa aprender a conviver com o silêncio constrangedor da casa quando a bola para no número errado.

Alfredo Gaspar fez o cálculo mais ousado de todos: abriu mão do Senado, embarcou como vice na chapa derrotada e saiu da urna sem mandato, mas com projeção nacional e a condição de principal liderança da direita alagoana. É a velha aritmética dos que preferem perder grande a ganhar pequeno. Em 2020 ele perdeu o segundo turno da capital para JHC. Em 2028, pode reencontrar o mesmo adversário indiretamente, dessa vez enfrentando o candidato que JHC abençoou. Há quem chame isso de revanche. A política tem outro nome: segunda chance.

E a direita não se resume a ele. Cabo Bebeto foi o deputado estadual mais votado de Alagoas, com 99.165 votos; Fábio Costa voltou à Câmara com 165.649. São números que nenhum convenção ignora. Do outro lado da mesa, o MDB — fortalecido pela vitória de Lula — guarda Rafael Brito, reeleito deputado federal com 117.115 votos e já testado na prefeitura em 2024. Nenhum deles é figurante.

Resta o essencial, que ninguém diz em voz alta: três anos é tempo de sobra para que alianças de hoje virem acusações de amanhã. O que se vê agora é apenas o ensaio, com os atores decorando falas que ainda serão reescritas. Em 2028 o texto será outro. Os nomes, quase todos, serão estes mesmos.

VEJA TAMBÉM