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Dois leais, uma cadeira

Há na política um silêncio que trabalha mais do que qualquer discurso. É o silêncio de quem ainda não marcou a reunião. Na Câmara de Maceió, enquanto o prefeito Rodrigo Cunha não senta à mesa para desenhar a Mesa, dois vereadores fazem o que todo político faz quando lhe sobra tempo e lhe falta despacho: contam votos no corredor.

Chico Filho, do PSDB, quer a reeleição e carrega na lapela o certificado da lealdade — foi dos primeiros a migrar para o ninho tucano quando a crise com o PL ainda fumegava. Samyr Malta, do Podemos, não exibe certificado: exibe serviço prestado. Foi peça do alargamento do capital político de JHC no Sertão, e quem rega terreno alheio costuma cobrar a colheita em cargo. Ambos próximos do mesmo padrinho, ambos do mesmo governismo, ambos à espera da mesma audiência.

Os aliados repetem, com aquela serenidade de quem fala para acalmar a si próprio, que não há clima para disputa — pelo menos até o momento. Reparem na cláusula. “Pelo menos até o momento” é a mais eloquente das confissões no dicionário dos bastidores. Significa que há, sim, duas candidaturas, e que a paz atual é apenas o intervalo entre o aquecimento e o apito.

Enquanto isso, o eleitorado dessa eleição miúda e decisiva é o mais exigente de todos: os próprios colegas de plenário. Vinte e poucos senhores que não se convencem por programa de governo nem por currículo, mas por promessa de comissão, de emenda encaminhada, de telefonema atendido no sábado. Nos bastidores já se fala em mudança porque algumas demandas não estariam sendo atendidas pela atual composição. Demanda não atendida, em Câmara Municipal, é a matéria-prima de toda alternância.

Cunha, que herdou o cargo e a parentela política que vem junto, tem diante de si o mais antigo dos dilemas do mandatário: arbitrar entre dois leais. É um exercício em que não se ganha nada e se pode perder tudo, porque o preterido raramente aceita a condição de preterido — apenas a adia. Daí a demora. Enquanto não há reunião, não há perdedor.

Mas o calendário é um credor pontual. Uma hora a cadeira será ocupada, e quem não a ocupar levará para casa a lembrança nítida de quem lhe fechou a porta. É aí que se descobre se o grupo governista era mesmo um grupo — ou apenas uma soma de interesses que coincidiram por uma temporada.

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