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O socorrista vira problema

 

Há famílias na política em que o mais novo acaba sendo o mais velho. É o caso dos Lessa. Quem conhece o funcionamento interno do clã sabe que Otávio Lessa exerce influência decisiva sobre a vida política de Ronaldo Lessa desde que o ex-governador se fragilizou. Não por imposição, mas por vocação: entre todos os integrantes da família, é ele o que tem o faro, o traquejo e a paciência do ofício. Socorreu o irmão mais velho nas horas ruins, que em política são quase todas.

Agora, porém, o socorrista corre o risco de virar o problema. A negociação que o levaria à ARSAL, liberando a cadeira do Tribunal de Contas para Paulo Dantas, tem potencial para arranhar justamente aquilo que ele passou anos costurando: a posição de Ronaldo junto a JHC. E há quem torça para isso. Integrantes do grupo caldista acompanham o movimento com o interesse de quem não precisa empurrar a pedra ladeira abaixo — basta soltá-la.

Convém lembrar o histórico. Não se pode dizer que o futuro governador tenha cumprido o compromisso assumido com o presidente do PDT, o de fazê-lo vice-governador. O que houve foi um acerto posterior, dessas composições que servem para fechar a ferida sem curá-la: Ronaldo assumiria o FECOEP. Menos do que se prometeu, mais do que nada.

É aqui que a aritmética do poder faz o seu trabalho silencioso. Tem muita gente no entorno de JHC convencida de que já não sobrevive razão para aquele acordo. Compromissos políticos têm prazo de validade tácito, e quem define a data não é quem recebe, é quem paga. No palco, o ator principal recita a lealdade; nos bastidores, o contrarregra já está retirando o cenário.

O paradoxo é cruel. O irmão que sustentou o outro nos anos difíceis pode ser exatamente a peça que, ao se mover para acomodar-se, desarruma o tabuleiro inteiro. Quem quer ganhar uma agência às vezes entrega uma cadeira a mais do que pretendia. E, nessa contabilidade, ninguém jamais explica ao perdedor que a conta foi paga com o dinheiro dele.

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