O tempo em que Marta carregava a responsabilidade de resolver os jogos para o Brasil passou. Hoje, ela pode dividir com uma nova geração esse papel na seleção brasileira. Isso a faz aproveitar ainda mais os momentos com a camisa amarela. Atualmente, aos 39 anos, ela quer curtir cada detalhe do futebol. Não mais com a obrigação de ter que provar, mas sim de desfrutar dessa fase madura. A pergunta sobre “até quando?” não a incomoda. E ela não trabalha com prazos. Vive o dia a dia da bola. Ainda nutre o sonho de ser mãe, engravidar e é atualmente o desejo que pode, quem sabe, fazer ela se despedir dos gramados ali na frente.
– Sempre eu vou estar, de alguma forma, agora, jogando é difícil, porque até agora a gente não descobriu como fazer isso, se tiver um jeitinho, se tiver, mas eu não sei cara, eu não sei como é que vai ser, sabe, eu não sei como é que vai ser daqui a um mês, o que eu sei é que eu estou vivendo esse momento agora, estou aproveitando o máximo dessa preparação pra minha última Copa América e eu quero terminar com uma imagem muito bonita, levantando a taça, curtindo com as meninas o máximo possível, então eu sei que isso tá muito próximo e é o que eu estou pensando agora, após isso eu já não sei mais, pode ser que eu volte para Orlando e chegue pra ele e fala assim ó, já deu pra mim, não dá mais, já era e pronto.
– Então eu estou nessa vibe, de viver o momento, de viver intensamente cada detalhezinho da convocação como o professor fala. Então se eu estou vivendo esse momento positivamente com o meu clube e me trouxe até aqui para estar na seleção, eu quero também viver intensamente isso aqui. Agora não me pergunte daqui a um mês ou dois meses, ou um ano, o que vai acontecer. Eu tenho mais um ano de contrato lá depois desse, mas não sei. Não sei porque fica aqui na minha cabecinha, ainda tenho o desejo muito forte de ser mãe. Então assim, pode ser que eu acorde um dia e decida, ligue para meu médico, vamos ver se ainda dá pra fazer o sistema acontecer. Se der, tchau, I have to go now – disse Marta em entrevista exclusiva ao Esporte Espetacular comentando sobre o processo para poder engravidar.
Dona de seis títulos de melhor do mundo, Marta é o ícone quando se fala em futebol não só no Brasil, mas no mundo. O segredo de seguir na seleção brasileira tem a ver com toda a carreira que construiu. E o desejo diário de seguir vencendo. O futuro segue com o objetivo ali na frente: conquistar mais um título de Copa América, o seu quarto na carreira. Para o Brasil, a busca é pelo nono título em 10 edições. Se a Marta dos gramados está realizada, para a Marta fora deles a maternidade é o principal objetivo.
– Sim, é muito bom jogar futebol. Eu adoro. A minha vida sempre foi isso. Sempre me dediquei. Quando eu entro em campo, a emoção é a mesma, sabe? A gana é a mesma de ganhar, de fazer acontecer. Mas ninguém vai jogar para sempre, né? Tem algumas coisas que o tempo também não me ajuda, né? Se eu quiser isso, eu não posso ter isso. Então, assim, vamos viver o momento. O amanhã, a Deus pertence. Se Ele colocar dentro de mim, do meu coração, é o que eu vou seguir. Mas dizendo mais, sempre que vocês me verem dentro de campo, com a seleção ou com o meu clube, é porque eu ainda tenho essa paixão e eu vou dar o meu melhor. Sempre. Sempre. Ainda acho bacana, acho legal acordar 6 horas da manhã todo dia (risos)para treinar. Depois disso, se eu não sentir mais isso, é porque não é para continuar como atleta. Talvez como atleta de pelada, de final de semana. Aí vocês não vêm me cobrar também, tá (risos)? Aí a pressão acaba um pouquinho porque a minha vida inteira foi pressionada. Tem que jogar bem, tem que não sei o que, tem que ganhar com a seleção, tem que ganhar com o clube. Aí, depois que eu pendurar (as chuteiras), não tem que ganhar nada, tem que ficar em casa de boa na lagoa, jogar quando quiser e treinar quando quiser e tal. Não chegou ainda, mas não te garanto se está longe ou está perto.
– Tanta coisa legal (no futebol). Eu quero aqui, o meu sonho agora é a Copa América. E eu vou lutar com essas meninas para a gente conquistar. Mas, tirando o futebol de lado, o meu sonho é ser mãe. Acho que duas (crianças) está bom, né? Eu um e Carrie (noiva) tem o outro e daí está tudo certo. E a gente tem o Zé também. Está bom já. E tantos outros no canil lá em Dois Riachos. Então está tudo ótimo. A Marta do gramado se realizou. E a Marta, pessoalmente falando, o que falta pra ela? A maternidade. Uma Martinha aqui. E, então, para jogar futebol eu empresária dela e tudo certo. Pode ser também (menino). Tem nome para os dois. O nome vamos deixar no ar.
A Copa do Mundo de 2027 será no Brasil. A pergunta que Marta mais escuta é se ela estará na competição que ocorrerá pela primeira vez em casa e também pela primeira vez na América do Sul. Mais uma vez, ela garante que não quer programar algo que vai acontecer daqui a dois anos. Ela sabe e reforça que só estará com a equipe se tiver condições técnicas e estiver em um bom momento com seu clube e seguir tendo a motivação diária para trabalhar em campo.
– Vontade a gente tem, mas a gente tem que ser realista, né? Eu estou num momento que eu não quero programar uma coisa daqui a um ano. Eu quero programar o que eu posso e que eu acredito que eu posso realizar agora. Então eu não tenho essa resposta. As pessoas perguntam, a Marta ainda está na seleção, então ela vai jogar a Copa? Eu não sei. Se em 2027 eu estiver jogando ainda, estiver bem, eu acho que eu tenho chance. E aí o Arthur, como ele sempre falou, ele vai sempre trazer as melhores que estão bem no momento. Então é nisso que eu tenho que pensar. Eu não tenho a resposta sempre e não tenho como te dizer, ah, eu vou jogar a Copa de 2027. Não, porque eu não sei se eu vou ter essa motivação tão grande pra me manter na ativa, treinando, jogando. Exige muito de você. Se já exige de mim agora, na idade que eu estou, eu vou estar com 41 na Copa, está tudo certo, gente. Apesar da galera falar que a Copa já está aí, já batendo na porta. Para mim é muito cedo dizer que eu vou jogar, porque para mim não está tão perto, entendeu? Eu teria que trabalhar mais um aninho e pouquinho aí, dois anos, digamos, para chegar bem na Copa.
– Então assim, o que acontece comigo no dia a dia, no meu trabalho, nos meus treinamentos, com a minha família, é o que vai me dando a resposta se é isso que eu quero, se é isso que realmente faz sentido, ou não. Eu contribuí até onde eu pude e eu acho que as meninas estão prontas, elas vão lá e vão ganhar a Copa e eu vou curtir como se eu estivesse jogando também, caso eu não esteja, porque isso foi a minha vida. Sempre fui pautada em estar aqui na Seleção Brasileira e eu sempre deixei bem claro que em qualquer circunstância se me ligarem, se me chamarem, eu vou estar sempre à disposição da Seleção para contribuir. Me ligaram aí ó, mas aí eu ainda estou como atleta, então eu estou aqui pra contribuir como atleta.
Na seleção brasileira, Marta também vive um novo momento em relação ao seu posicionamento. Ela tem mais liberdade na parte ofensiva, mas garante que não há privilégios na equipe e todas precisam contribuir e não ficar paradas.
– Ninguém fica parada aqui. Aqui não, na seleção não dá. No clube, em algumas situações, eu tento pegar alguns desvios. Porque, puxa, hoje em dia não dá pra toda hora você desafiar um contra um. Ou partir pra cima e tal. Então eu tenho que pegar alguns desvios. Mas ao mesmo tempo também trabalhando com que a nossa equipe consiga manter a equipe com a posse de bola. Então às vezes vai ter a hora de atacar. Mas vai ter a hora também de segurar um pouquinho. Respira um pouquinho. Segura a bola um pouquinho. A gente está fazendo isso de uma maneira, de uma maneira controlada. Por outro lado, se você pegar os últimos jogos da seleção, não dá para ficar parado, porque defensivamente é isso. Ofensivamente, a gente tem um pouco mais de liberdade, mas a gente tem um plano a seguir, então a gente não foge muito desse plano.




