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Crise nas UPAs expõe colapso silencioso da saúde estadual e leva sindicato a acionar código de ética para proteger médicos

A crise que vem se aprofundando nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) geridas pelo Governo de Alagoas ganhou novos contornos nesta semana, revelando um cenário de deterioração institucional e risco iminente de ruptura assistencial. Médicos das UPAs do Jacintinho e do Tabuleiro do Martins, duas das portas de entrada mais importantes da rede de urgência de Maceió, enfrentam atrasos salariais sucessivos — um endividamento forçado que já abrange a segunda metade de setembro e os meses completos de outubro e novembro. Não há, até agora, qualquer previsão de normalização.

Diante do avanço da crise, o Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed/AL) emitiu um comunicado contundente, evocando o próprio Código de Ética Médica para orientar a categoria a não assumir plantões ou funções de colegas que venham a ser demitidos ou afastados como represália por reivindicações trabalhistas. O alerta, amplamente divulgado nas redes da entidade, é baseado no Artigo 48, que proíbe expressamente que um médico suceda outro afastado por participação em movimentos legítimos da categoria. A orientação é uma tentativa de blindar profissionais contra manobras de pressão, retaliação e substituições indevidas, que já teriam começado a ocorrer nos bastidores.

O sindicato reforça ainda os Artigos 49 e 51, que vedam práticas de concorrência desleal e atitudes destinadas a garantir vantagens pessoais à custa da mobilização coletiva. A entidade afirma que qualquer médico que ferir essas normas poderá responder a processo ético no Conselho Regional de Medicina de Alagoas (CREMAL), evidenciando que o conflito ultrapassou a esfera contratual e entrou no campo da integridade profissional.

A situação financeira dos médicos contratados pela empresa Help Serviços Médicos — terceirizada da Organização Social Insaúde, responsável pela gestão das UPAs — é descrita como “insustentável”. Segundo o Sinmed/AL, apenas metade dos salários de agosto e setembro foi paga. Todo o restante permanece pendente.

A diretoria do sindicato se reuniu na noite de terça-feira (25) com profissionais das duas unidades para discutir medidas emergenciais. A entidade decidiu avançar com ações judiciais e oficiar novamente a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), cobrando garantias de que os repasses e contratos serão honrados. O governo, por sua vez, sustenta que os pagamentos à gestora estão em dia — um discurso que confronta frontalmente os relatos de atrasos feitos pelos médicos e as evidências observadas dentro das unidades.

O problema nas UPAs não é isolado. Ele integra um quadro sistêmico de esgotamento financeiro da rede hospitalar estadual. Três hospitais privados contratualizados pelo Estado — Veredas, Santo Antônio e Médico Cirúrgico — operam atualmente com cerca de 30% da capacidade. Os profissionais dessas unidades denunciam atrasos salariais que já chegam a cinco meses. Paralisações pontuais e redução de serviços tornaram-se rotina.

Com o impasse entre governo, empresas terceirizadas e trabalhadores, cresce o risco de que o atendimento de urgência e emergência em Maceió entre em colapso. Sem garantia de pagamento, com equipes defasadas e pressões administrativas crescendo nos bastidores, a rede está à beira de uma ruptura. E, enquanto versões oficiais e denúncias se chocam, o que permanece evidente é que a população — especialmente a mais vulnerável — pode ser a próxima a pagar a conta dessa crise que o governo insiste em minimizar, mas que, dentro das unidades, já é tratada como explosão anunciada.