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“Raposa no galinheiro”: após operação da PF na Saúde, governador cria comissão com parentes e levanta suspeitas sobre falta de isenção

A deflagração de uma operação da Polícia Federal dentro da Secretaria de Estado da Saúde expôs, mais uma vez, as fragilidades estruturais e políticas que cercam a gestão de uma das áreas mais sensíveis da administração pública. O que já era grave pelo seu próprio conteúdo — suspeitas de irregularidades, contratos sob investigação e o uso de recursos públicos sob escrutínio federal — ganhou contornos ainda mais delicados com a reação adotada pelo Palácio do governo nas horas seguintes à ação policial.

Em vez de anunciar medidas externas e independentes de apuração, o governador optou por criar uma comissão interna para “acompanhar” os desdobramentos da operação e colaborar com os órgãos de controle. À primeira vista, o gesto poderia ser interpretado como sinal de transparência e disposição para o esclarecimento dos fatos. No entanto, uma análise mais atenta da composição do grupo revela um cenário que levanta sérias dúvidas sobre a real intenção da iniciativa.

A comissão foi formada majoritariamente por pessoas com vínculos diretos de parentesco com integrantes do núcleo político do próprio governador. São familiares próximos, figuras de confiança pessoal e política, que orbitam o centro do poder e têm histórico de atuação em decisões estratégicas do governo. Na prática, o que deveria ser um instrumento de fiscalização e acompanhamento independente se transforma em um mecanismo de autocontrole, no qual investigados indiretos ou seus aliados passam a supervisionar a própria crise.

Nos bastidores, a decisão foi recebida com perplexidade por servidores de carreira, especialistas em gestão pública e até aliados políticos mais cautelosos. A metáfora que correu nos corredores do poder resume bem o sentimento: seria como “colocar a raposa para tomar conta do galinheiro”. A expressão popular, embora dura, reflete a percepção de que não há isenção possível quando laços familiares e interesses políticos se sobrepõem à necessidade de transparência.

A criação dessa comissão também provoca um ruído institucional relevante. Em um momento em que a sociedade espera respostas claras, afastamento de suspeitos e fortalecimento dos mecanismos de controle externo, o governo envia um sinal oposto: o de fechamento em torno de si mesmo. A medida pode ser interpretada como uma tentativa de controlar a narrativa, filtrar informações e reduzir danos políticos, em vez de garantir uma apuração ampla, técnica e imparcial.

Especialistas em governança pública alertam que crises dessa natureza exigem exatamente o contrário: auditorias independentes, participação de órgãos externos, como tribunais de contas e controladorias autônomas, além de total abertura às investigações federais. Qualquer iniciativa que concentre o controle nas mãos de familiares e aliados diretos tende a aprofundar a desconfiança pública.

No fim, mais do que a operação da Polícia Federal em si, o que passa a estar em julgamento é a capacidade — ou a disposição — do governo de permitir que a verdade venha à tona sem interferências. E, nesse ponto, a comissão criada lança mais sombras do que luz sobre um episódio que já nasce marcado por graves suspeitas.