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Redução da pobreza ou concentração de riqueza? O último ano de Paulo Dantas no poder

Ao ingressar em seu último ano à frente do Palácio República dos Palmares, o governo de Paulo Dantas chega envolto por um discurso oficial que exalta indicadores sociais positivos, especialmente a redução da pobreza. Os números, repetidos em pronunciamentos e peças publicitárias, servem como vitrine de uma gestão que se apresenta como eficiente e sensível às desigualdades históricas de Alagoas. No entanto, fora do marketing institucional, uma leitura mais atenta dos bastidores do poder revela uma realidade bem menos homogênea — e muito mais seletiva.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: pobreza reduzida para quem? Enquanto programas sociais ampliam sua capilaridade e ajudam a mitigar carências extremas em comunidades vulneráveis, uma elite política e administrativa ligada diretamente ao núcleo do governo parece ter experimentado uma prosperidade acelerada. Relatos de servidores, documentos públicos e cruzamentos de dados patrimoniais indicam que a bonança não se distribuiu de forma equânime. Pelo contrário: concentrou-se em círculos muito específicos do poder.

Contratações milionárias, aditivos sucessivos, terceirizações estratégicas e nomeações de aliados em cargos-chave compõem um mosaico que se repete em diferentes secretarias. Empresas com histórico de proximidade política passaram a figurar como vencedoras recorrentes de licitações, enquanto parentes e aliados de figuras influentes ascenderam rapidamente na máquina pública. Tudo, em tese, dentro da legalidade formal — mas longe de qualquer compromisso ético com a impessoalidade.

Nos corredores do Executivo e do Legislativo, a percepção é de que o governo funcionou como um mecanismo eficiente de redistribuição de renda às avessas: recursos públicos irrigando projetos, campanhas futuras e patrimônios privados de poucos, enquanto a maioria segue dependente de políticas compensatórias para sobreviver. A redução da pobreza, nesse contexto, parece ter sido um efeito colateral positivo, mas não necessariamente o objetivo central.

Órgãos de controle acompanham parte dessas movimentações, ainda que em ritmo considerado lento por especialistas. A ausência de investigações conclusivas e de responsabilizações efetivas reforça a sensação de impunidade e alimenta a descrença popular. Para críticos, o governo termina como começou: sustentado por uma base política robusta, blindado por alianças estratégicas e distante de um escrutínio profundo sobre seus métodos.

Às vésperas do fim do mandato, Paulo Dantas deixará como legado um paradoxo difícil de ignorar. Sim, indicadores sociais melhoraram. Mas, ao mesmo tempo, consolidou-se a percepção de que a pobreza que mais diminuiu foi a de alguns poucos integrantes do seu entorno. Para a maioria dos alagoanos, resta a dúvida se o combate à desigualdade foi política de Estado ou apenas retórica conveniente em um projeto de poder cuidadosamente administrado.