Há perguntas que a aritmética responde com facilidade e a política prefere não formular. Esta é uma delas.
Entre 2015 e os dias que correm, Alagoas administrou um volume de recursos que desafia a imaginação interiorana: mais de R$ 200 bilhões passaram pelas mãos dos governos Renan Filho e Paulo Dantas — empréstimos do Banco Mundial negociados desde a articulação de Teotônio Vilela Filho, R$ 700 milhões em financiamentos internacionais convertidos em reais, mais de R$ 2 bilhões da concessão do saneamento da Casal, e uma enxurrada de R$ 147 bilhões em repasses federais que, somados, fariam corar de inveja qualquer tesoureiro de república próspera. Não se trata de pouco. Trata-se, pelo contrário, de uma fortuna histórica despejada sobre um dos estados mais pobres da federação, com prazo, com expectativa e, supõe-se, com propósito.
O propósito, convém lembrar, tinha nome técnico e ambição declarada: modernização da máquina pública, transformação estrutural, entrega de resultados à população. As palavras constam dos contratos, das justificativas ao Senado, dos discursos de assinatura. Palavras nunca escassearam por aqui. O que se interroga agora é o que ficou delas — e para quem ficou.
Porque o que ficou de concreto, além das palavras, é uma dívida estadual de aproximadamente R$ 13,54 bilhões, equivalente a 71,45% da Receita Corrente Líquida. E uma conta que, a partir de 2027, começará a vencer em parcelas para os próximos governadores pagarem — esses que não estavam na mesa quando o champanhe dos empréstimos foi descortiçado. É a velha engenharia do gasto público brasileiro: quem celebra o crédito raramente é quem honra o débito.
Existe, na teoria das finanças, o conceito de que dívida é instrumento legítimo quando financia ativos que superam seu custo. A questão alagoana não é, portanto, a de que se endividou — é a de que o ativo correspondente, aquele que deveria aparecer na outra coluna do balanço, na vida das pessoas, na qualidade dos serviços, na redução da miséria endêmica, permanece obscuro, esquivo, difícil de localizar nos índices que medem o que realmente importa. Mais de dois séculos de cruzeiros, de reais, de dólares convertidos — e a pergunta que sobrou é a mais elementar de todas: mudou o quê, para quem?
Essa é a conta que nenhum secretário de Fazenda coloca no release e nenhum governador inclui no balanço de final de mandato. Mas ela existe. E, a partir de 2027, começará a ser cobrada — não dos que assinaram, mas dos que herdarem o estado de coisas. Ou o estado das coisas.
Fonte: Fernando Valōes




