A batalha entre Renan Calheiros e Arthur Lira nunca foi exatamente uma novidade no tablado alagoano — dois pesos-pesados da política nacional que, quando a maré vira, trocam de trincheira com a desenvoltura de quem troca de camisa. O que surpreende, desta vez, não é a briga em si, mas o teatro que a envolve: um senador convocando a bandeira da imunidade parlamentar para defender um vídeo nas redes sociais, como se Montesquieu tivesse previsto o Instagram ao esboçar a separação dos poderes.
O TRE de Alagoas mandou tirar o vídeo do ar, fixou multa de R$ 5 mil e o desembargador Antonio José de Carvalho Araújo foi categórico: Renan cruzou a linha entre a crítica política legítima e a imputação de ilícitos sem base fática. Em linguagem mais direta — acusou sem provar. Renan, naturalmente, discorda. Para ele, a sentença é censura. Para o magistrado, é limite.
Há nesse duelo uma ambiguidade que Maquiavel apreciaria. Fiscalizar é, de fato, dever do mandato. Mas transformar qualquer freio judicial numa perseguição à atividade parlamentar é o velho truque de quem confunde imunidade com impunidade. Renan vai ao CNJ, fala em “perigoso precedente de abuso de autoridade” — e o circo segue, com todos os seus acrobatas em plena forma.
A questão que fica, suspensa no ar alagoano, é simples e desconfortável: onde termina a denúncia corajosa e começa o ataque sem lastro? Essa fronteira, que os tribunais tentam demarcar e os políticos tentam apagar, é o verdadeiro campo de disputa nesse episódio — muito mais do que o vídeo em si.




