Há um fenômeno curioso na política alagoana — e não é de hoje — que poderíamos chamar de amnésia seletiva institucional. Não a esquecida por acidente, aquela que envergonha. Mas a cultivada, a regada com cuidado, a que serve ao poder como um jardim particular onde os fatos inconvenientes simplesmente não germinam.
A Operação Estágio IV, da Polícia Federal, veio ao mundo com estardalhaço. Trouxe consigo a denúncia de um desvio de R$ 100 milhões na Sesau. Cem milhões de reais. O número é desses que pedem pausa, silêncio, talvez um pouco de indignação. Mas o Palácio República dos Palmares optou por outra reação: o silêncio administrado, a investigação de fachada, a comissão que saiu do nada e chegou ao mesmo endereço.
Nenhuma iniciativa concreta para apurar o que de fato ocorreu. Nenhuma palavra para desmentir a PF, se a polícia errou. Nenhuma palavra para confirmar, se acertou. Apenas o vácuo fértil onde prospera a impunidade sem sequer precisar de decreto.
E no centro desse silêncio calculado, o secretário Gustavo Pontes de Miranda. O mesmo Pontes de Miranda que, para espanto de quem ainda se espanta com algo, mantém intacto o seu prestígio junto ao governador Dantas e a Marcelo Victor. Homem da absoluta confiança, diz-se. Considera-se. Sustenta-se. Como se entre o cargo e a tempestade que o cercou não houvesse nenhuma relação digna de exame.
Fica a pergunta, que não é retórica, mas política, e política no sentido mais duro da palavra: para Renan Calheiros, bom de briga como se sabe, veterano de tantas trincheiras, homem que fez do enfrentamento uma arte — nada, absolutamente nada aconteceu na Sesau? Ou aconteceu, e o preço do silêncio também tem seus cotistas?
fonte:Ricardo Mota




