Há certas discussões que só prosperam porque o palco político vive faminto de distração. A última, em Alagoas, foi a tentativa de transformar a definição ideológica de Renan Filho numa espécie de escândalo de tese, como se nomear onde se está no espectro político fosse um pecado que exigisse confissão pública e penitência.
O fato, porém, é simples ao ponto de ser constrangedor para seus provocadores: nenhum dos candidatos majoritários do estado — nem Renan Filho, nem Renan pai, nem JHC, nem Davi Davino, nem Alfredo Gaspar, nem Arthur Lira — é de esquerda. Declarar-se de centro, diante desse panorama, é quase uma banalidade geográfica. E o próprio Lula, que a direita mais extremada adora usar como fantasma eleitoral, já disse publicamente, mais de uma vez, que nunca foi de esquerda. O fantasma, ao que parece, não assina o próprio registro.
O problema real não é a posição de Renan Filho. O problema é que a polêmica revelou, com involuntária honestidade, o empobrecimento do debate político local. Quando a mera autodenominação de “centro” vira acusação, é porque o vocabulário disponível para a conversa pública se reduziu ao binômio grosseiro do preto ou branco, sem qualquer tolerância para os matizes que a realidade — teimosa, sempre — insiste em apresentar.
E a velha dialética, que já teve dias mais gloriosos, foi a maior vítima desse simplismo. Porque o “centro”, como lugar político específico e absoluto, de fato não existe — Renan Filho está certo ao se situar lá, e seus críticos estão certos ao dizer que o ponto depende de quem observa. Ambos têm razão pela metade, o que é exatamente a definição de dialética que ninguém mais quer praticar.
O que sobrou da esquerda alagoana cabe, segundo o próprio mapa da situação, numa fração sobrevivente do PT. O restante do espectro vai da extrema-direita ao centro-esquerda, com a direita ocupando o terreno mais largo. É um retrato perfeitamente legítimo de uma sociedade conservadora. O que não é legítimo é fingir que nomear esse retrato constitui heresia — ou que a falta de oposição robusta é culpa de quem governa ao centro, e não da própria escassez de quem se dispõe a ocupar as posições mais à esquerda do mapa.
No fim, a polêmica durou o tempo de um ciclo de notícias e morreu onde nasceu: no vazio. Deixou, no entanto, uma lição modesta e irreversível — de que em Alagoas, como em boa parte do Brasil, o debate ideológico virou território minado não pela complexidade das ideias, mas pela preguiça de sustentá-las.




