A fumaça, já dizia o adágio, só existe onde há fogo — ou onde alguém sopra com muito cuidado para que pareça que há fogo. JHC domina essa arte com uma competência que poucos adversários lhe reconhecem abertamente, mas que todos, em surdina, admiram ou temem.
Ao emprestar o próprio nome a uma pesquisa eleitoral como “possível” candidato ao Senado, o ex-prefeito de Maceió não anunciou nada. Não prometeu nada. Apenas abriu uma janela e deixou o vento entrar — esse vento frio e incerto que desorganiza agenda, embaralha aliança e faz o aliado dormir mal. O gesto custou pouco. O efeito, considerável.
O pano de fundo é aquele entendimento costurado nos corredores de Brasília, o tal acordão que reservaria a Renan Filho a passarela solitária rumo ao governo do Estado, sem disputante do mesmo campo atravessado no caminho. Uma arquitetura política que exige, acima de tudo, silêncio dos potenciais concorrentes. E silêncio é exatamente o que JHC se recusa a guardar — ao menos enquanto o silêncio tiver algum valor de troca.
A candidatura ao Senado, em si, já parece descartada antes mesmo de ser formalizada. Mas esse não era o ponto. O ponto era lembrar a todos que ele existe, que tem peso, que tem preço — e que acordos firmados longe de Maceió precisam, cedo ou tarde, ser ratificados por quem ficou em Maceió. A fumaça cumpriu sua função: ninguém sabe ao certo onde está o fogo, e essa dúvida, por ora, é o maior patrimônio político que JHC possui.




