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A janela do caos

Há uma ilusão muito conveniente que o calendário eleitoral fabrica, com a precisão artesanal de quem sabe exatamente o efeito que quer produzir. A data da convenção partidária — 5 de agosto, em Alagoas — é anunciada como se fosse o ato final de uma peça já ensaiada, o momento em que as cortinas se abrem para revelar um palco cujo roteiro estava escrito desde sempre. Candidatos posam para fotos, discursos de vitória são redigidos com antecedência, assessores calculam margem de votos antes mesmo de o jogo começar. É a encenação da inevitabilidade, tão cara à política brasileira.

Engano. A convenção é apenas o prólogo.

Quem frequenta os corredores onde as decisões reais são tomadas — não os salões iluminados dos palanques, mas os ambientes de pouca luz onde os telefones não param — sabe que o verdadeiro nó está amarrado em outra data: 15 de agosto, prazo derradeiro para o registro de candidaturas na Justiça Eleitoral. É entre uma data e outra que a política mostra sua face menos fotogênica e mais verdadeira. Dez dias que podem desfazer em silêncio o que foi construído em meses de negociação pública.

Nesse intervalo, alianças que pareciam sólidas revelam suas fissuras. Candidaturas apresentadas com pompa nas convenções são reavaliadas com frieza cirúrgica. Acordos refeitos à meia-noite substituem os que foram celebrados à luz do dia. Há desistências que ninguém anuncia, composições que ninguém esperava e reviravoltas que, dias antes, soariam como delírio. A história eleitoral brasileira está cheia desses momentos em que o mapa foi reenhado no último instante, deixando analistas e adversários igualmente perplexos.

É nessa janela, portanto, que Alagoas vai se revelar. Não nas convenções, com seus rituais previsíveis e seus aplausos ensaiados, mas nos dias que se seguem — quando a pressão do prazo obriga cada ator a mostrar o que realmente quer, o que aceita ceder e o que jamais abrirá mão. Quem souber ler esse silêncio tenso entre o 5 e o 15 de agosto entenderá muito mais sobre o poder real do que qualquer discurso proferido sob os holofotes. O calendário diz que há ordem. Os bastidores garantem que há caos. E, como sempre na política, o caos costuma ter razão.

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