A política, como se sabe, tem seus próprios institutos de transmissão hereditária — e nenhum cartório é necessário para lavrar a escritura. Basta o cálculo, a oportunidade e, claro, um sobrenome ou uma âncora afetiva suficientemente carregados de votos.
O PSDB estuda colocar Marina Cintra, ex-primeira-dama do estado, na corrida pela última cadeira na Câmara Federal. A lógica é de uma transparência quase desconcertante: Marina Cândia, que puxava o grupo para cima com força própria, migra para a disputa ao Senado, e alguém precisa herdar a clientela eleitoral que ela deixa para trás. Herdar — a palavra já diz tudo sobre o que se concebe por representação neste país.
Há algo de inventário nessa movimentação. O eleitorado tratado como bem transmissível, um ativo a ser arrolado e redistribuído entre os herdeiros do grupo. A candidata que parte lega à candidata que chega não um programa, não uma bandeira, mas um conjunto de votos — mapeados, estimados, negociados. Como se o cidadão que deposita sua confiança num nome fosse automaticamente passível de transferência, qual conta bancária que muda de titular.
Não é cinismo exclusivo de partido algum. É o método. É a gramática universal da sobrevivência eleitoral, praticada com a mesma fluência nos mais variados espectros e siglas. O que surpreende não é a manobra em si, mas a naturalidade com que ela é descrita nos bastidores — sem disfarce, sem eufemismo, com a serenidade de quem acerta a divisão de uma herança entre parentes próximos.
Marina Cintra ainda não está confirmada. Mas a cogitação já é, por si só, um retrato fiel do momento: menos que uma candidatura, por ora, ela é uma solução contábil à procura de uma biografia.




