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Herdeiro sem armadura

Há políticos que constroem carreiras inteiras sem nunca conhecer o sabor amargo da dúvida. Governam suas certezas como quem governa territórios pacificados — sem resistência, sem surpresa, sem o saudável incômodo de ter de provar alguma coisa a alguém. Renan Filho foi, por anos, um desses homens. Herdeiro de nome, articulador fino, transitou pelas disputas eleitorais com a desenvoltura de quem conhece de cor o mapa do labirinto.

Desta vez, não.

A notícia que se confirma nos bastidores é simples e, por isso mesmo, reveladora: ele acreditou, até os minutos finais, que chegaria ao ponto de largada sem adversário à altura. Que a eleição para o Governo seria, antes de ser travada, já vencida. A política alagoana, porém, reservou-lhe o que os clássicos chamariam de uma lição de humildade tardia — aquele tipo de aviso que a fortuna pronuncia em voz baixa antes de elevar ou de derrubar.

É a sua primeira eleição difícil. Dita assim, a frase parece simples demais para o que carrega. Significa que Renan Filho vai encarar, pela primeira vez, o eleitorado sem a armadura do candidato sem rival. Vai ter de convencer, não apenas de se apresentar. Vai ter de disputar — verbo que, para quem sempre navegou com o vento a favor, pode ser tão desorientador quanto desconhecido.

Há uma certa ironia no destino de quem acumulou poder justamente pela habilidade de antecipar movimentos e controlar variáveis, e chega à eleição mais importante de sua trajetória sem ter previsto que ela seria, enfim, uma eleição de verdade. O xadrez que ele domina por instinto passa a ter peças que se movem sem o seu consentimento. Isso não o condena. Mas o expõe — e a exposição, para quem sempre foi mais arquiteto do que gladiador, é a prova mais exigente que existe.

O que vem agora é território novo. E territórios novos, como ensinam os que estudam tanto as guerras quanto as campanhas, não se conquistam com os mapas do passado.

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