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Muda o governador, fica o desvio: as cinco operações federais que expõem a cultura da corrupção na saúde de Alagoas

Há doenças que o tempo não cura. Há instituições que o tempo não regenera. A saúde pública de Alagoas pertence a essa segunda categoria — um organismo que resistiu a todos os médicos, a todas as receitas, a todas as trocas de jaleco no corredor do poder, sem jamais se libertar da infecção que o corrói por dentro.

Quase uma década de investigações. Não é coincidência; é continuidade. É sistema. Desde 2017, a Polícia Federal e a CGU debruçam-se sobre os mesmos contratos, os mesmos fundos, os mesmos circuitos de dinheiro público que escorrem por entre os dedos de quem deveria guardá-lo. A Operação Correlatos vasculhou R$ 243 milhões em compras emergenciais. A Florence — batizada com a ironia involuntária do nome de quem inventou a enfermagem moderna — apurou R$ 30 milhões em irregularidades com familiares de políticos. Mandatos passam, operações chegam, os números crescem. A Estágio IV fala em mais de R$ 100 milhões no Fundo Estadual de Saúde. A Ruptura, já em 2026, investiga se a própria estrutura do SUS foi aparelhada para servir ao calendário eleitoral.

Muda o governador, muda o nome da operação. O enredo, não.

O que se instala, ao longo de tantos anos e tantos inquéritos, não é um escândalo — é uma cultura. O escândalo pressupõe a surpresa, o desvio do ordinário, o tropeço incomum. Aqui, ao contrário, a regularidade é a própria anomalia: o fundo de saúde como caixa de múltiplos usos, as licitações como liturgia de aparências, a urgência como passaporte para o dispensável. Nenhuma operação federal conseguiu romper o fio condutor que atravessa gestões diferentes com a mesma desenvoltura.

A pergunta que fica, depois de quase dez anos e cinco operações, não é quem roubou. É o que, afinal, resta do princípio segundo o qual o dinheiro destinado à saúde do povo serve à saúde do povo. Essa resposta, Alagoas ainda não encontrou.

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