Há uma operação de cosmética política que se repete tanto nos calendários eleitorais brasileiros que já se tornou quase um ritual codificado: o servidor público que some do cargo sem que o cargo, propriamente, saiba disso. Sai pela porta, mas permanece na janela. Exonerado no papel, presentíssimo na festa.
É o que o Ministério Público Eleitoral aponta no caso de Yale Barbosa Fernandes, indicado para vice na chapa de Renan Filho em Alagoas nas eleições de 2026. Segundo a impugnação assinada pelo procurador regional eleitoral Marcial Duarte Coêlho, Yale teria deixado a Secretaria Executiva da Prefeitura de Arapiraca em abril — e em seguida migrado, com naturalidade de quem troca de gabinete sem trocar de andar, para a função de assessor técnico especial. Uma desincompatibilização que, na prática, teria sido mais lateral do que vertical.
O que complica a defesa é a evidência que o próprio poder público municipal deixou registrada: o site da Prefeitura de Arapiraca e as transmissões oficiais do São João de 2026 apresentavam Yale como secretário de Governo e como um dos responsáveis pela organização do evento — bem depois das datas em que, segundo os documentos, ele já não seria nada disso. A presença numa reunião institucional em julho, posterior ao suposto afastamento do cargo de assessor, é o tipo de detalhe que não passa despercebido aos olhos treinados de uma procuradoria eleitoral. Quando o declaradamente exonerado ainda assina a pauta, alguma coisa no enredo não fecha.
A desincompatibilização existe no ordenamento jurídico eleitoral justamente para separar, com nitidez, o gestor público do candidato. É uma linha. Cruzá-la com um pé de cada lado não é transgressão elegante — é inelegibilidade em construção. O MPE pediu que a Prefeitura de Arapiraca apresente os atos de nomeação e exoneração publicados no Diário Oficial dos Municípios. Documentos que, até o momento da impugnação, a procuradoria afirmou não ter localizado.
O TRE-AL terá agora de decidir se Yale Fernandes se desincompatibilizou de verdade ou apenas de forma documental — distinção que, em direito eleitoral, pode ser a diferença entre disputar o governo e assistir à posse de fora. A chapa encabeçada por Renan Filho inicia 2026 com uma interrogação pendurada no lugar onde deveria estar o vice. Em política, interrogações abertas custam caro. E as que envolvem o Ministério Público Eleitoral têm o hábito inconveniente de não se fechar sozinhas.




