Há uma pergunta simples que, no Brasil, exige coragem desproporcional à sua simplicidade: o que é que não querem que você saiba?
Quando o poder move uma ação contra dez rádios e portais de comunicação ao mesmo tempo, a resposta raramente está nos autos do processo. Está no silêncio que se pretende fabricar. Está no vazio que se quer instalar onde havia voz. Renan pai e Renan filho — dois capítulos do mesmo romance de família, encadernado com dinheiro público e costurado com fio de influência — parecem ter decidido que a melhor defesa não é a transparência, mas a extinção do holofote.
É um método antigo, aliás. Tão antigo quanto os príncipes que Tácito descreveu: não se governa proibindo que se fale mal do imperador — governa-se impedindo que se fale. A censura explícita é tosca demais para os tempos modernos. O instrumento contemporâneo é jurídico, burocrático, envolvido em papel selado e linguagem técnica, mas o efeito almejado é idêntico ao do velho édito: cala a boca.
O que impressiona não é que tentem. O que impressiona é a escala. Dez veículos, de uma vez. É como se alguém, em vez de apagar uma vela, resolvesse cortar a energia do bairro inteiro. Há nessa desproporção uma confissão involuntária: o que circula nessas ondas e nessas páginas incomoda o suficiente para justificar um esforço tão largo, tão coordenado, tão determinado a varrer o incômodo do mapa.
A pergunta que o próprio material oferece — o que é que Renan pai e Renan filho não querem que você saiba? — não é retórica. É a única questão que importa. E o fato de que ela precisa ser feita em voz alta, com o risco de também ser silenciada, já é, em si mesma, uma resposta parcial. Democracias que funcionam não produzem esse tipo de silêncio organizado. Produzem barulho, contradição, debate áspero. O que se vê aqui é diferente: é a engenharia do apagamento.
Quem não quer ser ouvido, em geral, tem algo a esconder. Quem processa a imprensa em bloco, em geral, prefere a escuridão à explicação. E a escuridão, como se sabe, é sempre mais favorável a quem já ocupa o trono do que a quem tenta iluminá-lo de fora.




