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O microfone emprestado

Há velhas histórias que a política brasileira insiste em recontar, como se o tempo não passasse e a memória do eleitor fosse, por convenção tácita, curta demais para incomodar. Em Alagoas, o nome Collor ressurge não pela força de um projeto, mas pelo peso de um controle — o controle sobre o que o eleitor vê, ouve e, por extensão, pensa.

A Coligação Alagoas Gigante foi à Justiça Eleitoral denunciar o que qualquer espectador atento já havia notado: as Organizações Arnon de Mello, herdadas politicamente pelo ex-senador Fernando Collor de Mello, transformaram o “Central das Eleições” numa espécie de palanque diário com verniz jornalístico. Meia hora de programa, quase dez minutos entregues ao presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victor, e seus aliados do MDB, atacando o adversário JHC sem que o alvo tivesse sequer o direito à tréplica. Em outro trecho, a emissora exibiu um vereador fazendo *react* a uma fala de JHC — mas ocultou a fala original. O espectador recebeu a resposta sem ter ouvido a pergunta. Uma edição que não informa: manipula.

Há aqui algo que vai além da disputa eleitoral ordinária. Uma concessão pública de radiodifusão existe por outorga do Estado — é dizer, o sinal que a emissora usa não lhe pertence por direito natural, mas por permissão. Com essa permissão vem uma obrigação que a lei eleitoral enuncia com clareza meridiana: imparcialidade no período de campanha. Usar o sinal público para desequilibrar a disputa é, em linguagem mais direta, servir-se do bem comum para fins privados. Não é jornalismo. É estratégia com microfone emprestado.

O episódio tem a gramática clássica dos fenômenos de comunicação e poder que o Brasil conhece há décadas. Donos de emissoras que são, simultaneamente, protagonistas ou financiadores de projetos políticos, e que constroem a cobertura não para iluminar o debate, mas para obscurecer o adversário. A peça jurídica da coligação cita o texto da lei com precisão; o que a lei não consegue capturar, contudo, é a naturalidade com que essa prática se perpetua — como se fosse um custo aceito da democracia, e não uma agressão a ela.

Alagoas merece mais do que esse espetáculo. E o eleitor, independentemente de quem apoie, merece enxergar o ringue inteiro — não apenas o ângulo que interessa a quem controla a câmera.

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