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PF investiga contratos do Hospital da Criança e do Médio Sertão e compromete legado de Renan Filho e Paulo Dantas

Há investigações que chegam como raio em dia de sol. E há as que chegam como maré: silenciosas, progressivas, inevitáveis. A Operação Estágio IV, da Polícia Federal, pertence ao segundo tipo. Mais de cem milhões de reais em contratos sob suspeita no Fundo Estadual de Saúde de Alagoas — fraudes, corrupção, organização criminosa, lavagem de dinheiro. O cardápio é vasto. E a investigação, ao que indicam os sinais, ainda não terminou de abrir o menu.

O que torna o caso particularmente incômodo é a sua arquitetura temporal. As obras não nasceram do nada. O Hospital Regional do Médio Sertão foi anunciado em 2021, sob Renan Filho. Os contratos que hoje preocupam a PF vieram depois, já na gestão Paulo Dantas. Essa espécie de herança com cláusulas ocultas é um fenômeno recorrente na política brasileira: o antecessor lança a pedra fundamental, o sucessor assina os papéis — e os dois compartilham, queiram ou não, o mesmo endereço nos autos.

O Hospital da Criança é o capítulo mais revelador dessa história. Durante anos, foi exibido como a joia da coroa das gestões petistas em Alagoas, a prova material de que o Estado se importava com os mais vulneráveis. Agora, dois contratos firmados em 2024 e 2025, somando mais de dezoito milhões e meio de reais, estão sob a lupa federal. É o tipo de situação que transforma troféus em fardos — e legendas em alvos.

Ressalve-se, com a lealdade que os fatos exigem, que a PF não atribuiu publicamente responsabilidade criminal a Renan Filho no âmbito desta operação. Essa distinção importa e precisa ser dita. Mas a política, diferentemente do Direito, não espera o trânsito em julgado para cobrar seus preços. A associação está feita no imaginário público, e desfazê-la exigirá mais do que silêncio ou nota de assessoria.

O que a Operação Estágio IV revela, antes de qualquer sentença, é a fragilidade crônica de uma governança que confunde legado com propriedade. Quando a saúde pública vira vitrine eleitoral, o risco é que o mesmo palco que serviu à fotografia do governador inaugura sirvam também de cenário para a investigação da polícia. Em Alagoas, essa conta chegou. E o extrato, por enquanto, não fecha.

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