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A virada

Há noites em que as urnas não apenas declaram um vencedor — elas enterram uma era. O domingo de outubro em Alagoas foi uma dessas noites. Com 52,04% dos votos válidos, João Henrique Calheiros — o JHC do PSDB, ex-prefeito de Maceió — saiu das eleições como governador eleito, derrubando Renan Filho, herdeiro do clã que por décadas tratou o Estado como propriedade de família. Não foi apertado. Foi categórico.

O que torna o resultado ainda mais eloquente é a trajetória que o produziu. JHC não chegou ao Governo de Alagoas como um fenômeno repentino, daqueles que surgem sem raiz e somem sem rastro. Chegou como o produto de uma construção metódica: dois mandatos à frente de Maceió, uma reeleição expressiva em 2024, e a paciência de quem sabe que capital se acumula antes de se gastar. Quando decidiu ampliar o território, tinha com o que pagar a conta.

A noite, porém, não se encerrou com a sua eleição. Marina JHC, em sua estreia nas urnas, conquistou 28,05% dos votos e uma cadeira no Senado Federal — oito anos de mandato, oito anos de presença em Brasília ao lado do marido que governa em Maceió. O arithmético do resultado é irresistível: enquanto JHC herda o Palácio República dos Palmares, Marina herda um dos dois assentos que Alagoas destina à Câmara Alta. E quem ficou de fora? Renan Calheiros, com 22,41%, viu a cadeira que ocupava no Senado escapar pelas mãos — terceiro lugar numa disputa de duas vagas. A simbologia não precisa de comentário.

Estamos diante de uma reviravolta que a história política alagoana demorará um tempo para processar. Os grupos que durante décadas alternaram entre si o domínio do Estado — e que aprenderam a sobreviver um ao outro com a desenvoltura dos que nunca conheceram a derrota definitiva — saem deste domingo com o mapa reconfigurado de forma que nenhum deles havia desenhado. JHC e Marina partem para governar o Estado e representá-lo em Brasília. Os antigos donos da praça contemplam, da calçada, uma arquitetura de poder que foi erguida sem eles. Às vezes, as mudanças não chegam com estardalhaço. Chegam com 52,04% — e ficam.

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