⛅
Maceió []
Min: Max:
Pesquisar

Antes de entregar as chaves, MDB desmonta sua própria arquitetura de poder em Alagoas

A derrota nas urnas tem uma liturgia própria, conhecida de todos que transitam pelos corredores do poder. Primeiro vem o silêncio — aquele silêncio pesado de quem aguarda o anúncio da sentença. Depois, as exonerações. É sempre assim, e em Alagoas não seria diferente.

Paulo Dantas não perdeu tempo. Com JHC confirmado governador eleito, o atual mandatário tratou de reorganizar o que podia reorganizar — servidores comissionados e contratados começaram a sair, num movimento que a praxe batizaria de “transição administrativa” e que os iniciados reconhecem pelo nome mais preciso: o esvaziamento. A arte de esvaziar antes que o outro ocupe.

O MDB alagoano, grupo capitaneado por Renan Filho e Renan Calheiros, construiu ao longo dos anos uma arquitetura de influência que vai muito além dos votos. Secretarias, cargos de confiança, redes de lealdade cimentadas com os tijolos do tempo e da conveniência. Essas estruturas não se desmontam numa tarde. Mas é exatamente essa desmontagem que está em curso — e a expectativa é de que o processo alcance o alto escalão.

Há, naturalmente, o discurso. O discurso de uma “transição pacífica e republicana”, expressão que ressoa com a elegância de quem sabe que as câmeras estão ligadas. A política brasileira é pródiga nesse tipo de cortesia verbal: os sorrisos protocolares, os apertos de mão fotografados, os comunicados que falam em continuidade e respeito institucional enquanto, nos bastidores, as cadeiras ainda quentes já são disputadas. O verniz é impecável. A realidade, um pouco menos.

O que se passa em Alagoas não é exceção — é a regra vestida com roupa local. O poder que se vai arruma a casa antes de entregar as chaves, e quem chega sabe que encontrará uma casa já arrumada segundo os critérios de quem saiu. A transição, portanto, nunca é tão pacífica quanto o adjetivo sugere. É uma negociação silenciosa, travar por travar, milímetro por milímetro. E esse jogo, por mais que se tente dissimulá-lo com a linguagem da democracia, é tão antigo quanto o próprio poder.

VEJA TAMBÉM