Há uma certa geometria silenciosa no poder. Ele não marcha em linha reta; ele dança, desvia, escorrega pelos interstícios da ordem jurídica e cai, quase sempre, no colo de quem menos se esperava.
Na noite desta quarta-feira, o Palácio República dos Palmares foi palco de uma dessas cenas que os manuais de ciência política raramente descrevem, mas que a vida pública alagoana oferece com uma generosidade quase didática. O governador Paulo Dantas partiu de férias — férias eleitorais, diga-se, pois foi coordenar o segundo turno do presidente Lula em Alagoas. O vice, Ronaldo Lessa, já havia renunciado ao cargo. O presidente da Assembleia, Marcelo Victor, alegou compromissos inadiáveis. E assim, como num jogo de cadeiras em que os primeiros escolhidos recusam o assento, o governo do estado foi parar nas mãos do presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Fábio Bittencourt.
Não é a primeira vez. Em dezembro de 2025, Bittencourt já havia estreado nesse papel. O que sugere que Alagoas está desenvolvendo uma tradição peculiar: a de resolver os impasses do Executivo recorrendo ao Judiciário — não pelos tribunais, mas pela porta dos fundos da Constituição Estadual.
O desembargador recebeu o cargo com a sobriedade de quem já conhece o roteiro. Prometeu continuidade, visitas a obras, despachos, atendimento à população. Palavras corretas, temperadas com a cautela de quem sabe que governa de empréstimo. A família estava presente — esposa, filhos —, e havia na cerimônia conduzida pelo secretário Felipe Cordeiro uma atmosfera de ocasião protocolar que ninguém, ao que tudo indica, se esforçou para disfarçar.
O que fica, contudo, é o retrato de uma arquitetura política que, quando tensionada, revela suas fissuras com exemplar transparência. Quando o primeiro, o segundo e o terceiro da fila ou renunciam, ou partem, ou se declaram indisponíveis, o estado segue funcionando — amparado, com algum desconcerto, pelo quarto da lista. Não é colapso. É quase rotina. E talvez seja exatamente isso o que mais inquieta.




