Há vitórias que chegam como o entardecer no sertão — devagar, com cor própria, sem pedir licença. A de Pedro Leão no Festival do Rio, domingo passado, é dessa cepa. O Troféu Redentor de Melhor Ator da Mostra Novos Rumos não foi colhido nos jardins irrigados dos grandes centros: veio de Alagoas, carregado na bagagem de dois alagoanos que decidiram, antes de qualquer coisa, não desistir.
Pedro Leão e o diretor Ulisses Arthur chegaram ao principal festival de cinema do país com *Não Estamos Sonhando* — e o título, percebam, já contém em si uma declaração de método. Não é fuga. É afirmação. A insistência daqueles que sabem, por experiência própria, a diferença entre sonhar e iludir-se, e escolhem, mesmo assim, o sonho com os olhos abertos.
No discurso, ao segurar o prêmio, Leão disse o que sentiu sem artifício: “É o sentimento mais especial que já senti em toda a minha vida. Não acreditava que isso ia acontecer.” Tem uma honestidade rara nessa confissão pública de dúvida vencida. Em tempos em que todo vencedor se diz sempre certo de si mesmo, a humildade de quem não acreditava e mesmo assim foi é quase um ato político.
E foi político. “Viva a democracia, viva o cinema nacional”, encerrou o ator — e a frase não soou como protocolo, soou como quem sabe que arte e liberdade têm o mesmo endereço, e que esse endereço precisa ser defendido com a mesma tenacidade com que se faz um filme longe dos holofotes e dos orçamentos fartos.
O cinema nacional ganha quando Alagoas chega ao pódio. O país ganha quando o interior interrompe o monólogo das capitais. E a democracia, essa construção sempre inacabada, ganha cada vez que um palco — seja ele de mármore ou de chão batido — abre espaço para quem ainda ousa acreditar.




